Estamos há uma semana a viver em ditadura mas, de resto, tudo bem.
A Kika tem 61 anos. Emigrou há 35 para França, penso que para fugir à ditadura, no Chile. Teoricamente, a ditadura neste país terminou em 1990. Contudo, 29 anos passados, há ainda uma casa no Chile (do meu conhecimento) que permanece em regime ditatorial: a casa da Kika. E foi precisamente neste ambiente de medo que celebrámos os 45 anos do nosso tão querido 25 de Abril.
Tudo começou a 23 de Abril, passada 3a feira. Mal chegámos, foi-nos avisado pelos nossos comparsas de trabalho escravo – a Marie e o Quentin (já lá vamos) – que a Kika cobrava 4€ por dia, por pessoa, pela comida – “Ah, é o preço de uma sandwich”, disse-me ela, justificando-se. Mas na descrição do work away (o site que aqui nos trouxe onde se troca estadia e comida por horas de trabalho), nadinha, não havia qualquer referência a termos que pagar. Não sei onde é que a Kika compra sandwiches mas as minhas, caseiras, não custam mais que 1€ normalmente. Por 4€, comia sander de caviar. E sendo que já íamos trocar a nossa estadia e alimentação por trabalho, 5h por dia (ah não, espera, afinal eram 6h; ela também se esqueceu de actualizar esse pormenor no perfil do workaway), não esperávamos por esta.
Mas pronto, ficámos, “vai ser giro, a Kika é cozinheira e até se vai comer bem”.
O segundo dia começou com a consolidação da ditadura. Basicamente, acordamos às 8h, tomamos o pequeno almoço, vamos trabalhar, preparamos o almoço e voltamos a ir trabalhar até às 17h/18h, para depois irmos preparar o jantar. Portanto, temos tempo livre depois das 21h30 para aí, quando acabamos de jantar, para coçar um pouco as costas, espirrar em caso de necessidade extrema e pouco mais. E pagamos por isto! Em pleno século XXI, num país relativamente desenvolvido, não sabia que ainda havia trabalho escravo. E tudo porque a Kika é uma desorganizada, anda sempre a correr de um lado para o outro e ficamos sempre a meio do que estamos a fazer porque temos que esperar que ela chegue para nos dar o seu aval.
Para além disso, está sempre a controlar-nos, a ração é servida sempre por ela. Hoje por ex. teve que ir à vila e não almoçou mas deixou expressamente assente que podíamos usar 1,5 pacotes de massa (para nós os quatro, o Puno, que está a construir uma das casas, e o Cris, amigo da família, também a ajudar nas construções). Depois, a seguir ao (nosso) almoço, voltou cheia de fome (apesar de nos ter dito que não contássemos com ela para almoçar) e ficou muito espantada porque tínhamos comido tudo – “pero comieran mucho”, disse ela à Marie.
No outro dia, a Marie e o Quentin, fizeram uma tarte de limão, quando a Kika foi jantar fora e, logo na manhã seguinte, tinha a Kika a perguntar-me que tarte era aquela. Quando lhe respondi que era uma tarde de limão, ripostou logo – “quantos limões usaram?” (não com um ar de quem quer aprender uma receita.) Disse-lhe que não sabia pois tinham sido os franceses a fazer e foi prontamente perguntar à Marie. Foi ligeiramente cómico quando a Marie lhe disse que só tinham usado 1 limão e que era uma tarte muito económica.
Ontem, a Kika disse-me que me tinha visto a comer azeite com pão, aliás, chamou-me à parte e disse: “tenho um pedido a fazer-te”, eu já a achar que tinha feito asneira, matado alguma das suas plantas, dado comida de cão ao gato (apesar de que o cão aqui só come comida de gente, cozinha-se carninha especial todos os dias para o menino jantar), mas logo prosseguiu “já vi que comes muito pão com azeite” (comi uma vez), “e temos que poupar azeite, porque é muito caro” (fala a pessoa que prepara abacate todos os dias para o pequeno-almoço, sendo que o preço do abacate por estas bandas não está propriamente mais barato que o azeite). E eu, a medo, “claro, claro, não vou comer mais”. Por 4€ por dia nem tenho direito a pão com azeite. Snifff
Outro pormenor engraçado é que quando nos pede que cozinhemos tem sempre que interferir nas receitas, mesmo quando não está. Por exemplo, comprei coentros (com o meu dinheiro, já depois de paga a minha contribuição pessoal diária obrigatória de 4€, 3.000 pesos chilenos mais concretamente) para fazer um pesto de coentros para a minha pizza (que fui eu que fiz) mas não mo deixou fazê-lo, disse que me fazia outro, que tinha uma maionese de alho óptima também para a pizza (maionese na pizza?!). Fez um alho com pesto intragável, pareceu de propósito. Depois, diz-nos sempre quais os 4 ou 5 ingredientes que podemos usar nas nossas receitas, mesmo que em casa haja todos os ingredientes imagináveis. Hoje pediu-me que fizesse um vinagrete para comer com as alcachofras, fiz um digno de Michelin (com os coentros que não me deixou usar na pizza) e, mal virei costas, encheu o meu molho de vinagre. E ela nem almoçava. Voltei à cozinha, depois de um breve afastamento, e estava ela a destruir o meu molho. Mal saiu, entornei mais 200ml de azeite lá para dentro, para dissolver o vinagre. Usei mais azeite à conta dela. É a vida.
A Marie e o Quentin são uns franceses simpáticos mas, como todos os franceses, não falam muito mais do que a sua língua materna. Ela ainda arranha um Espanhol e Inglês mas ele, nadinha de nada. Para mim até tem sido bom para praticar o Francês, que estava um pouco enferrujado. Isto porque, mal descobriram que falava um pouco de Francês, já só falavam comigo na sua língua mãe. Até o Manel já fala um pouco de Francês: “Quierrres isto?”, pergunta ele, carregando nos rr a achar que está a ser entendido.
Para além desta vida de escravidão, já temos umas luzes de como fazer uma casa de barro, com fardos de palha, casa e banho seca (cocó, só se pode nesta, segundo a Kika; a casa de banho “normal” é só para xixi, apesar de eu já ter percebido que nem todos estão a cumprir esta regra)…
Passou o 25 de Abril e nem nos apercebemos. Lá fora, cheira a liberdade. Mais uma semana e estamos livres para voar novamente.







