Iquitos – chegada ao Perú

Três dias bem passados no campo, numa vila perto de Iquitos onde tínhamos que chegar de barquinho a motor. O Eduardo – couchsurfer que nos hospedou, mas a quem não chegámos a conhecer beleza pois ele trabalha na cidade e aí habita durante a semana – está a construir um lodge na selva que nos recebeu muito bem.

Ficámos num dos bungalows disponíveis que tem a particularidade interessante de ter a casa de banho separada da dos bungalows vizinhos apenas por uma rede mosquiteira. Ou seja, são três casas de banho coladas entre si e…com vista panorâmica para a casa de banho vizinha, de modo a que quando alguém quer ir ao WC de “sua” casa tem que ir bater às portas da vizinhança a ver se o espaço está livre ou se não entrará a meio do banho, ou do xixi, ou de coisas piores, de alguém.

Por outro lado, havia piranhas, enguias, peixes enormes, cobras e aranhas mas estas últimas não chegámos a encontrar. Para além de ser picada por uma abelha pela primeira vez (não chorei, fui corajosa), passeámos no povoado, onde não há carros – só tuktuks – e em Iquitos. Na aldeia, toda a gente tem um plasma de várias polegadas por mais precária que seja a sua casa – não sei o tamanho exacto nesta unidade de medida mas se esticar os meus dois braços um para cada lado, não deve chegar nem para metade da maior parte das televisões. Até as casas de madeira e de palha têm plasmas, só falta o ferrari à porta!

Iquitos não cheira tanto a prostituição como esperávamos, isto porque a única coisa que conhecíamos da cidade foi o que lemos há uns anos no “Pantaleon y sus Visitadoras” que conta a história de um general que é enviado para Iquitos com a missão acabar com um problema grave do exército, que andava a violar as mulheres da cidade. O assunto é resolvido com a abertura de um bordel exclusivo para os elementos exército. Bem, realmente, o quartel militar parece mesmo um bordel dos anos 50 mas de resto nem por isso. Por outro lado, parece que estamos em África, os vendedores dos mercados também aqui dormem em serviço, nas suas barraquinhas, o que dificulta um pouco algumas compras de bens essenciais, já que não queremos importunar o sono de ninguém.

Estamos agora a caminho de Lagunas, onde vamos fazer o safari na selva, no barco mais podre de sempre. Eramos para ter ido num cargueiro que nem lugar para as redes tinha (íamos dormir no chão) mas quando chegámos ao porto, disseram-nos que o barco não iria sair nesse dia (quando já tínhamos combinado tudo com o capitão no dia anterior) e fomos então encaminhados para outra embarcação, que parece ser mais velha do que muitos avós.

Este foi de facto o pior barco de toda a viagem – e já lá vão 18 dias em barcos. Condições bem precárias, casa-de-banho única para todo o barco dentro da casa das máquinas (tinha que pôr tampões nos ouvidos para ir à casa de banho se não quisesse ficar surda), vizinhos muitos reles, só gritavam, banho nem vê-lo (quer dizer, existia, eles é que não o frequentavam), saudades da gente bem cheirosa do Brasil. De destacar também o facto de chover na minha rede (e as tempestades na amazónia não são para meninos), o que me fazia acordar várias vezes a meio da noite e dar por mim a pensar se teria feito xixi na cama; e do embate frontal contra uma árvore, a meio da noite, que nos deixou todo o seu tronco dentro do barco. Por sorte, não houve feridos graves. Mas por que carga de água embatemos nós contra uma árvore, na margem do rio, quando há tanto espaço entre margens para navegar?! No dia seguinte, avistámos várias garrafas de cerveja vazias, junto à cabine do capitão, que porventura possam responder a esta pergunta.

Em todo o caso, livrámo-nos de boa por não termos ido no cargueiro, que passou por nós no terceiro e último dia de viagem (a lentidão do nosso barco era tal que fomos ultrapassados por um cargueiro que saiu de Iquitos no dia seguinte a nós) cheio de galinhas! Galinhas em todo o piso, onde iriamos dormir. O cheiro chegava até ao nosso barco e não era propriamente agradável!

PS: Passámos por um povoado chamado Lisboa. Curioso. Nada a acrescentar.

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