Dois Mundos, o mundo físico e o espiritual

Conhecemos o Dos Mundos através do Matteo, um amigo italiano que conhecemos na viagem. Já tínhamos ponderado e logo desistido da ideia de experimentar ayahuasca – uma planta medicinal típica da amazónia, conhecida por proporcionar viagens espirituais – porque não estávamos assim tão a fim de uma trip psicadélica e há muitos charlatães aqui na zona a fazer vida e burla da coisa.

Contudo, o Matteo falou-nos muito bem do trabalho que se fazia no centro, em Yurimaguas (na amazónia peruana). E contou-nos também que o ayahuasca que se tomava aqui era mais no intuito de limpar o corpo para depois se poderem tomar outras plantas, essas sim com grandes poderes curativos – é uma espécie de centro de desenvolvimento/cura física e espiritual. Para além disso, neste centro, o ayahuasca não tem grandes efeitos psicadélicos pois não lhe agregam uma outra planta (chakruna) que potencia as visões, o que é feito na maior parte dos lugares. Achámos que podia ser interessante e como até ficava na nossa rota, entendemos que devia ser um sinal do além.

E lá viemos nós. Primeiras impressões cinco dias volvidos: isto parece uma seita. Há montes de russos endinheirados e problemáticos – viemos a perceber depois que a invasão se deve ao facto de a mulher do grande mestre (ou sanador, como o intitulam), ser russa -, inclusive uma família bastante estranha, em que os pais têm um ar obscuro e perturbado, um dos filhos (que deve ter uns 6 anos) tem um nível de autismo muito elevado – acho que não fala sequer mas está sempre a berrar, a atirar comida para o chão e corre nu pelo recinto para fugir do banho), outro filho (de 7 ou 8 anos) que não parece ter problemas mentais graves mas que é muito sádico e faz maldades aos cães (tenta sufocá-los, etc.). O elemento da família que parece mais são é a filha de 2 ou 3 anos, com um ar querido, mas mesmo essa tem uma relação com os animais um pouco estranha, não tem medo nenhum e pega em todos como se fossem objectos (e também pelo pescoço). Mais tarde soubemos que já cá estão no centro há uns seis meses e que todos melhoraram bastante, nem consigo imaginar como eram antes. A parte boa é que já aprendi umas 5 palavras em russo.

Para além disso, a fauna é bastante diversificada e nem sempre agradável. Os mosquitos atacam em força, mesmo com a janela fechada não acendemos a luz do quarto à noite, porque eles conseguem entrar pelas ranhuras. Há uns vinte cães pulguentos – estou farta de ser picada por pulgas, já encontrei milhares na minha cama, no outro dia foram 8 ou 9 no mesmo dia -, vários gatos, duas araras no “refeitório” que por vezes deixam cair cocós, um macaco fechado numa jaula (!?) – dizem que começou a morder pessoas e teve que ir para lá mas por que raio é que está aqui um macaco para começar, isto já não fica propriamente na selva -, várias vacas, cavalos, pavões e umas trezentas galinhas que começam a cantar às 2h da matina (têm sido umas noites muito bem descansadas, está claro)! E peixes, até lagos têm onde criam peixes. É uma espécie de quinta pedagógica, portanto. Um pormenor interessante é que servem frango no refeitório mas compram-no fora, não matam as suas galinhas (!?), de modo que elas se reproduzem a toda a hora e só vão aumentando. Dizem que é por causa das energias que elas podem deixar no centro ao serem abatidas mas, se assim é, poderiam simplesmente não servir frango. O mesmo com as vacas e os cavalos, não há qualquer controlo de natalidade animal, apesar destas espécies não se comerem. Basicamente, uma das vacas (entre dez, para aí) é mugida diariamente e às vezes monta vê-se umas crianças a cavalo mas há uns dez ou doze.

Enfim, julgámos que vínhamos para um género de retiro meditativo, super calmo, paz e amor e nicles. Para além disso, as pessoas não são muito simpáticas, quase ninguém fala connosco, temos que andar sempre a correr atrás dos membros da organização para saber o que fazer.

No segundo dia, Don Pepe (um pormenor interessante é que a sua mulher é a única pessoa que utiliza este prefixo quando se refere a ele – será que também o chama assim em privado? -, não vejo mais ninguém a tratá-lo por Don) fez o nosso diagnóstico. Resumidamente, vários chakras bloqueados, frio no corpo, má circulação, artrite eu tinha também os sistemas linfático e digestivo danificados. Eu ia na esperança de ter uma pena inferior ao Manel pois já tinham dito no dia anterior a quantidade de ayahuascas que cada um tinha que tomar na limpeza inicial (eu: quatro, Manel: cinco), contudo, fui aconselhada a fazer 3 meses de dieta com plantas medicinais. O Manel não estava assim tão mal, foi descrito como o caso típico de “detox” por todas as asneiras que já fez na vida, 50 dias de dieta – e olhem que o menino come bem (comia, que entretanto ele já é uma nova pessoa, por falar nisso).

Eu, por outro lado, que tenho uma dieta exímia (vá, parece que os últimos dois a três anos de dieta exímia ainda não compensaram os anteriores vinte e sete e todos os pacotes de bolacha maria, marmelada e queijo, versão tripla tosta, que comia ao lanche, até não poder mais) tive quase um diagnóstico de morte. As palavras do gerente cá do sítio foram mais ou menos isto:

– Bem, basicamente, vais ficar doente. Pode ser daqui a um ano, daqui a cinco anos, daqui a dez anos. Mas já tens aí uns órgãos muito afectados que se irão manifestar. – disse ele

Snif, snif, snif. Bem, nós vínhamos por duas semanas mas depois destas palavras uma pessoa fica a achar que três meses neste ambiente de pura espiritualidade, com todos os pormenores acima descritos, nem é assim tanto tempo. Por esta altura, já estimávamos estar no México mas havemos de conseguir lá chegar um dia.

Depois de me imaginar acamada num hospital por breves momentos, reforço interiormente que três meses neste paraíso não é assim tanto tempo. De facto, só tinha uma dor de costas. Vá, e algumas mazelas que vão importunando aqui e ali mas quem não tem as suas chatices? Considerava-me uma pessoa saudável. E agora, vou ficar doente daqui a um, cinco ou dez anos? Bem, venha lá essa terapia milagrosa.

E lá decidimos dar uma hipótese e ficar um mês para fazer as duas primeiras dietas. Com o passar das semanas, apercebi-me de que afinal o meu caso não devia ser assim tão problemático pois as pessoas com doenças efectivamente graves – um senhor com parkinson, outra com fibromialgia, cancro, artrite aguda, e muitos com as mais diversas coisas) – têm diagnósticos de seis ou sete meses. Ufa, estou pronta para as curvas então. Mas vamos lá a isto e sairemos daqui como novos.

E lá começámos. E provavelmente todos os dias das primeiras três a quatro semanas pensámos em desistir, não propriamente pelo ambiente idílico que aqui se vive, mas porque as plantas são todas muito difíceis de tomar. Difíceis é pouco mesmo. E até o masoquismo tem limites.

O ayahuasca é simplesmente intragável, só o cheiro dá-nos vómitos (e cozinham-na todos os dias por baixo do nosso quarto pelo que, mesmo quando não é dia de tomar, o cheiro dá o ar da sua graça). Faz-nos ter visões durante algumas horas e é suposto começar a vomitá-la passado meia hora de a tomarmos pelo que bebemos vários tragos de água para o efeito.

Dizem que o truque é aceitar a planta mas aceitá-la não é fácil. Eu consegui fazer as pazes com ela à quarta vez, desde que percebi que, se tapasse o nariz quando a bebesse e o deixasse tapado nas horas seguintes, e se não tivesse medo de ter visões e ficar tantan (ah pois, porque aquela coisa de este ayahuasca não dar visões não era bem assim, realmente não se alucina mas vêem-se várias coisas, em todo o caso, estamos sempre conscientes), a experiência era ligeiramente melhor, apesar de mesmo com o nariz tapado aquilo saber muito mal.

Cerimónia de ayahuasca

Contudo, há algo ainda mais intragável que o ayahuasca, a mucúra, planta que se toma pelas manhãs durante os primeiros dias e que quase nos faz vomitar o nada que temos no estômago apesar do seu intuito ser precisamente reforçar este órgão. Sabe a alho cru e a cebola, uma delícia.

Para além destas peripécias, os dieteiros – as pessoas que estão em período de dieta com alguma planta específico fazem uma dieta especial, para que a comida não interfira com a planta – movimentam-se de chapéu de chuva a toda a hora (mesmo de noite) para se protegerem do sol, chuva e humidade. E vemos crianças de dois e três anos a tomarem ayahuasca, dizem que se começa aos nove meses de idade! É assim tipo um supositório em linguagem ocidental, de pequenino se torce o pepino, eu a ver navios e os miúdos a tomar aquilo na maior (na verdade, os europeus também trazem as suas crianças para tomarem).

Depois de enfardarmos os ayahuascas, começámos a nossa primeira dieta, por uma semana, desta vez com uma planta de toma única chamada Oje – intuito: detox profundo, limpa todos os parasitas e fica até seis meses no corpo. Seguiram-se 3 dias e meio sem poder tomar banho (naturalmente, o cheiro no nosso quarto ficou impróprio para humanos, devido aos litros de suor que saem do corpo do meu querido marido).

Comida de dieta:

 – Pequeno-almoço: copo de papa de aveia (entenda-se aveia + água, nenhum outro aditivo), uma batata cozida, três raminho de brócolos/couve flor;

– Almoço: copo de mingau de arroz (arroz cozido + água), pepino, alface, banana da terra verde (ou seja, sem sabor algum) cozida;

– Jantar: igual ao pequeno-almoço.

pequeno-almoço e jantar

Há também a opção de dieta piscatória que consiste em papa de aveia, peixe (parece um carapau mas é do lago) e batata/banana da terra. Nem me importava de comer um peixinho de vez em quando mas quando se opta por uma versão de dieta, esta deverá manter-se até ao final da mesma, pelo que peixe 3x por dia, não obrigada, ainda acordava a saber a peixe.

Escusado será dizer que tudo é cozido em água, sem qualquer adição de sal ou outro condimento! Mas pronto, é só um mês disto (três semanas para o Manel, ser mais quente por dentro). E depois outro.

Seguiu-se a segunda dieta sem interregnos: ucho + ajo (bebido 1,5L diariamente, em três tomas). Intuito: aquecer o corpo, melhorar circulação sanguínea. Para quem não entende espanhol, ajo = alho. E sabe a alho. Muito alho. Demorava sensivelmente 1h (às vezes 1:30h) para beber a minha taça de meio litro, normalmente pomos sempre um episódio de uma série ou filme para acompanhar a toma e às vezes dá para dois episódios (já papámos todo os chef tables e programas culinários da netflix que não tínhamos visto – óptimo programa para quem está em privação de comida – e passamos todo o dia a falar do que vamos comer quando terminarmos a dieta, a idealizar novas receitas e a procurar restaurantes para ir, aqui e na europa). O Manel é um pouco mais rápido, consegue beber em 15 ou 20 minutos. Para além do agradável sabor inicial, um balde de planta (que recebemos do laboratório) dá para três dias, e à medida que os dias passam, ela vai fermentando, o que significa que o sabor melhora com o passar dos dias (é assim como o leite velho, vai ficando azedo).

Mas pronto, há que aceitar a planta que as más energias que pomos na toma vai afectar o seu trabalho interno, dizem os conhecedores.

No outro dia, a Natividad, uma das pacientes do centro e colega de mesa, disse-nos que estávamos a cheirar a alho, nós já devemos estar tão habituados que nem reparamos.

Depois de terminar a dieta, fui enterrar a minha planta – deixei-a perto de uma árvore de graviola, foi um bonito funeral, depois de três semanas de convivência. O Manel já tinha terminado uma semana antes e andou por aí a vagabundear no refeitório em festas de anos, bolos e afins enquanto eu comia a minha batata.

Resultados obtidos. Manel: 10 kg perdidos. Teresa: 3 kg perdidos (esta última teve direito a 3 copos de aveia extra por dia, para não correr o risco de desaparecer daí ter tido perdas mais suaves).

Sabe muito bem voltar a comer que nem gente grande, até a comida do refeitório, que quase não tem sal e inclui sempre dois ou três tipos de hidratos (normalmente arroz, batata e às vezes massa, tudo na mesma sopa) por refeição para um bocadinho de legumes sabe incrivelmente bem. Felizmente temos o nosso azeite então regamos o arroz com azeite e fica digno de Michelin. Já nem preciso de acrescentar sal à comida, de repente, tudo tem sabor. Tudo é uma questão de perspectiva, de facto.

No meio desta onda de aceitação, resolvemos então que eu ficaria em Janeiro para mais uma dieta (depois de umas merecidas férias de natal de Tarapoto, cidade próxima) enquanto o meu querido marido iria vagabundear pelo Perú.

Iniciei o ano com quatro dias de silêncio e dois dias de cegueira. O silêncio passou-se bem mas a cegueira foi algo muito, muito, muito difícil. Ainda por cima não tinha ninguém para me guiar (como eu fiz ao meu querido esposo que também já tinha feito voto de cegueira no final do ano). Para além de que, como o Manel se foi embora, tive que me mudar para um quarto colectivo, que ficava muito mais longe do refeitório, e com um caminho de terra cheio de declives (no outro dia, ainda antes de estar “cega” espalhei-me à grande e à francesa), bifurcações, etc., etc. A parte mais fácil do dia era entrar em casa, subir três andares e tomar banho/ir à casa de banho.

E claro que deveria ter praticado melhor o caminho antes, pois mesmo da última vez que o fiz, me perdi. Tinha calculado mal as distâncias e os obstáculos eram muitos (mais do que nos jogos sem fronteiras), como árvores, plantas por todo o lado, animais, chapéus de chuva abertos no chão, baldes dos banhos florais, entre muitos outros. O percurso do quarto até ao refeitório, que não deve sequer chegar a 100m, era feito em 20-30 min, isto num trajecto bom. Acho que consegui fazê-lo sem me perder em 10% a 15% das vezes!

Para acrescentar a isto, o modo cego do iphone (também não sabia que isto existia mas parece que todos os telemóveis o têm) possibilitava-me apenas ouvir as horas e uma playlist que tenho do Nick Cave (e mesmo para conseguir pôr a playlist a dar, demorava uns 30 minutos), de modo que já sei quase todas as letras do Nick Cave de cor, já que não me dediquei a grandes actividades enquanto cega, para além das necessidades básicas.

Obrigada, obrigada, obrigada por estes ricos olhinhos, nunca mais me queixarei da miopia com certeza. Uma experiência interessante mas possivelmente a não repetir, principalmente num terreno como este grau de acessibilidade para pessoas com deficiência física.

A minha última planta foi uma maravilhosa surpresa: sabia ligeiramente a algas e era bastante fácil de beber (quando não estava fermentada e terrivelmente azeda, o que acontecia ao final do primeiro dia). Mesmo assim, a zarza foi a melhor planta que bebi cá pelo centro. E naturalmente, o sol passou a brilhar mais para mim. Chegaram mais pessoas normais, já tinha amigos lá no centro e tudo parecia mais azul.  Mas um bem nunca vem só.  Na minha última semana, apanhei um resfriado e o remédio disponível era um género de uma papa de batata que cheirava e sabia a cocó de cão. Realmente, sempre tínhamos achado estranho cheirar a cocó na cozinha, parecia que alguém pisava cocó e o levava lá para a dentro. Um maravilhoso cocktail, portanto x 5 dias (2x ao dia). Comer cocó de cão: checked!

E depois de 25 dias de abandono do meu mais-que-tudo, que andou a vadiar pelo sul do Perú enquanto eu bebia cocó, lá terminei a minha última dieta e encontramo-nos de novo em Lima, onde ficámos em casa do Carlos, um senhor que esteve pelos Dois Mundos apenas por uma semana e que nos convidou a permanecer na sua casa emoldurada por uma coleção de Harley Davison’s (tinha sete!) – nem vou comentar a parte em que cobravam um preço mais elevado aos estrangeiros no centro, porque os peruanos ganham pior, como se isso fosse regra (havia já um comité de estrangeiros enraivecidos com esta prática racista) ou do dia em que o Carlos referiu que não se podia ter uma vida digna em Lima (cidade onde se almoça por €2 num restaurante), ganhando menos de $3.000/mês (num país onde o salário mínimo são 250€/mês).

Enfim, a grande atracção de Lima é mesmo a comida e para tirar a barriga de misérias dos últimos dois meses e meio a batata e brócolos (vá e também celebrar as nossos 9 invernos de namoro) demo-nos ao luxo do ano (ou dos últimos anos, mesmo) e fomos almoçar ao Central, um restaurante bem posicionado na lista dos melhores do mundo. Valeu todos os dias a estorricar ao sol enquanto esperávamos por quem nos desse boleia, durante o último ano. E as dormidas em camiões. E em casas com baratas. Há poupanças que valem a pena.

Leave a comment