Temos vindo a aperceber-nos que o maior mercado de MPB (música popular brasileira) é mesmo Portugal, já que a maior parte dos brasileiros não se anima nada em ouvir Caetanos, Chicos Buarques ou as Ellis Reginas desta terra. No Rio de Janeiro, ainda se pode encontrar umas rodas de samba mas no geral o que mais alimenta o povo é o Sertanejo. O top nacional é composto por Jorge e Mateus, Marco e Jacob, um género de Miguel e André cá do sítio; Marilia Mendonza, uma ressurreição barata da Ivete Sangalo em tom lamechas – é traída pelo marido ou amante de alguém em quase todas as músicas – mas que de tanto ouvir (deve ser a artista que mais passa em todo o Brasil de momento), já não sabemos viver sem ela; Maiara e Maraisa e outras que vieram na vaga do empowerment das mulheres – homem que vá a um concerto destas meninas corre algum risco de levar com umas maçãs podres na cara, as mulheres na plateia ganham toda uma energia e gritam pelas suas causas. Exemplo de letra:
Maiara e Maraisa – Eu traí sim
Sabe aquele dia que eu pedi pra você ir embora
Da casa do seu amigo e você não foi?
Eu fiquei sozinha
E fiz até um jantarzinho pra impressionar você
E você não veio
Você só quer rolê
Fica só na bebedeira pra se aparecer
E eu fiquei até altas horas e nada de você
Você queria o quê?
Traí
Traí, sim
Traí
E trairia de novo
Você queria ser sucesso
Então, tá aí seu nome na boca do povo
Entre os grandes êxitos, há também o filho do Jacob, que tem onze anos – uma espécie de pequeno Saul – cujo hit tem o seguinte refrão (que é praticamente toda a música já que se repete interminavelmente):
Ela é toda, toda, toda perfeitinha
E o melhor é que ela é toda, toda minha
Ela é toda, toda, toda perfeitinha
Dá vontade de guardar numa caixinha
Pela nossa experiência no Brasil, pode-se dizer que as músicas que se ouvem são bastante representativas do dia-a-dia, dada a quantidade de cachaceiros e filhos bastardos que há por aqui, na maior parte das famílias. Um homem com virilidade aceitável tem, no mínimo, filhos de duas ou três mulheres, aparecendo em casa para jantar nas folgas da cachaça. Por outro lado, apraz-me a particularidade (vá, esta não só daqui, tem acontecido um pouco por toda a América do Sul) de muitos homens, quando se dirigem a nós os dois, falarem só com o Manel, ou quando querem chamar-nos aos dois, chamarem pelo Manel como se eu fosse um ser invisível (de facto, pela minha cor, percebo que possa eventualmente ser confundida com uma nuvem mas às vezes o céu está azul) ou tivessem que pedir ao Manel autorização para falarem comigo. É caso para dizer que o feminismo vai de vento em popa nesta região do mundo.
No norte do país, conhecemos alguns novos estilos musicais, como o Brega (na sua maioria, grandes hits do pop internacional com letra brasileira, não uma mera tradução, eles criam toda uma nova letra para a melodia existente, adaptada à realidade local) ou o Carimbó, uma espécie de folclore do Pará, onde as senhoras dançam em roda com umas saias compridas e coloridas. Há ainda o Tecno-brega, que passa principalmente nas baladas e nas colunas (verdadeiros sistemas de som) que os brasileiros levam para a praia. E, mais recentemente, conhecemos o Forró-funk, que me pareceu ser uma mistura entre as educativas letras do funk com os ritmos do forró.