Mari, mari, compuché? (“Olá, como estão?”, em Mapuche)
Ontem e anteontem fomos a dois trafquintos (eventos de troca de sementes), com a Kika. Cada um numa vila diferente. Ao que parece, os eventos ocorrem 2x por ano, no início da primavera e do outono.
O trafquinto de ontem foi o mais giro porque, para além dos câmbios, também envolveu uma cerimónia Mapuche (os Mapuches são um dos maiores povos indígenas do Chile e Argentina (das zonas de Pucon, Temuco) e, tal como todos os outros povos indígenas aqui das zonas (e provavelmente do mundo), foram massacrados pelo colonizador. Ao contrário de muitos outros povos, em que não sobrou nem uma alma para contar a história, alguns indígenas Mapuches sobreviveram e hoje ainda há um milhão de descendentes. Fim da lenga lenga.). Fizemos os agradecimentos à natureza e uma espécie de reza, na língua deles, depois andámos todos à volta de uma árvore (o altar) a dançar e, no final, bebemos uma coisa que parecia água de arroz por cozer mas que, na verdade, uma bebida à base de farinha de trigo fermentada (provavelmente irá estar na moda, na europa, quando a febre do abacate e da spirulina assentar). Não era nada mau.
O evento tem um princípio nobre e anti-capitalista, basicamente todas as pessoas que lá vão podem levar sementes ou plantas e trocá-las pelas sementes dos outros. É proibida qualquer transação de dinheiro.
Eu entusiasmei-me um pouco e minei-me com as sementes da Kika – aquelas que percebi terem mais procura – e percorri todas as barraquinhas a trocar por tudo aquilo que consegui. Fui aclamada pela Kika como a grande comerciante das tardes (de facto, utilizei todas as minhas habilidades de conversação, tentando não corromper o sistema com práticas capitalistas). Consegui várias plantas cujo o nome desconheço, sementes de tabaco, abóboras de todos os tamanhos (há abóboras aqui que têm quase 1m e devem pesar mais de 7kg), girassol, espinafre amarelo, lã (também havia pessoas a levar roupa feita por elas), óleo de massagens e, por fim, uma echarpe de alpaca. Convenci o senhor das alpacas a vir à nossa banca ver o que tínhamos para oferecer (já de olho na alpaca para mim, visto que a Kika me tinha dito que podia escolher qualquer coisa para usufruto próprio uns minutos antes) e, depois, deixei a Kika explicar-lhe melhor como se usavam algumas das plantas que tínhamos. E lá veio a echarpe mas, no impasse da troca, a Kika é que escolheu a cor. Não me deu grande oportunidade de selecção e, depois de ela ter dado todas as plantas que lhe restavam ao senhor, reduzi-me à minha insignificância. Fui almoçar a minha sopinha de feijões e mote, que as senhoras Mapuches habilmente cozinharam, sossegadita e desanimada, visto que quando o assunto eram peças de elevado valor económico já não havia cá ofertas pelo nosso trabalho. Depois fomos visitar Pucon com a Kelly, uma vizinha/amiga brasileira da Kika (que também é sua vítima de bullying).
No dia seguinte, a Kikinha ofereceu a cada um de nós uma peça que tínhamos trocado no trafquinto, a mim calhou-me a echarpe! Urra, urra! Disse 100x para mim: a Kika é uma boa alma. E agora já só nutro amor e carinho por ela. Ao Manel calhou-lhe um gorro de lã que não lhe cabia, teria que ser um XXL para o efeito, mas que conseguiu trocar por outro (entretanto já o perdeu).
Passadas algumas horas, a Kika já tinha activado o modo ditador e já nos queixávamos dela novamente. Na verdade, ela não é nenhum monstro, vá, é simplesmente uma daquelas pessoas com dupla personalidade. Havia alturas em que era muito simpática e amável, levava-nos a visitar vulcões e a passear (10% do tempo), gostava de ensinar-nos coisas (20% do tempo) mas depois activava o modo ditadora stressada que procura presas fáceis para massacrar e fazer bullying e que nada podem fazer para se defenderem, visto estarem em território dominado por si e terem que agir segundo as suas normas. Um regime ditatorial portanto.
Posto isto, mal ela saiu de casa com o Cris, de manhã (e logo depois de todos termos tomado o pequeno-almoço), eu, o Manel e os nossos comparsas franceses atacamos o pão como se comida não víssemos há uns três dias. Na verdade, era eu que tinha feito o pão, de modo que tinha alguma propriedade sobre a matéria-prima, apesar dos ingredientes pertencerem à Kika (que talvez fossem, na realidade, matéria-prima mas adiante), contudo comprados com os nossos 3.000 pesos diários. Os franceses comeram um queijo inteiro (para aí de 500g) que tinham comprado (com fundos próprios não incluídos na contribuição diária obrigatória para a ração). Foi uma sensação de liberdade total, parecia que tínhamos saído todos de uma jaula. Acabámos praticamente com o pão. Não é que passássemos fome mas, como ela controla tudo o que comemos, dá vontade de comer mais. Na verdade, acho que todos comemos mais do que normalmente comeríamos (já engordei uns bons kg aqui) se não estivemos sob uma onda de privação – há que fazer render os 3.000 diários. Ela é que ainda não percebeu o efeito nefasto das suas regras (foi um problema de vários ditadores, ao longo da história da humanidade), senão já teria concluído que, na verdade, iria poupar alguns pesos se não controlasse tudo o que comemos. Estive o dia todo a rezar para que a Kika não se lembrasse de comer pão (o que normalmente acontecia ao almoço e jantar), pois aí iria perceber que já não restava praticamente nada. E não é que nos demos bem! À noite, depois do jantar, levou-me a mim e ao Manel à estação – rumo a Santiago – e rio-me com ligeiro desnorte só de imaginar a cara dela, amanhã, quando vir que o pão sumiu. Só tenho pena da Marie e do Quentin, que lá ficaram, e vão ser as vítimas. Mas também podem pôr a culpa toda em nós e assim se safarem de um dia de tortura. Na verdade, eles é que comeram quase tudo, eram os gorilas do grupo.
Outras coisas com grau de relevância ligeiramente mais reduzido foram as aprendizagens da semana. Estivemos a construir uma das casotas (um anexo para turismo), com o Puno. Fizemos a kimcha – a estrutura das paredes, palha com uma estrutura de madeiras por cima -, o barro (areia, argila e palha), para colocar por cima da kimcha, entre outras coisas.
Tentámos também ensinar espanhol ao Quentin – já sabe dizer “muy rico”, “castanhas”, “café” e mais duas ou três coisas. E, entretanto, resolvemos cortar o cabelo ao Manel, aliás, rapar. Digamos que foi a minha primeira vez com a máquina na mão, de modo que houve alguns deslizes, nada de especial, uns golpes que na próxima semana já nem se notam. Foi bom para aprender, da próxima vez ficará perfeito.











