Saímos de Tilcara directamente para a Bolívia. Na Bolívia não há cá boleias que eles são desconfiados mas felizmente os autocarros são bem em conta, provavelmente em virtude da taxa de sobrevivência de uma pessoa que circule em veículo motor de quatro rodas, nem quero imaginar duas, neste país. Dizem que, no Perú, é ainda mais perigoso, mal posso esperar. Enfim, foi uma viagem bem passada, a combater uma gastroenterite, de pé no autocarro, saquinho de plástico na mão para uma eventualidade, a morte a passar ao lado, muito perto de desmaiar pela primeira vez mas ainda não foi desta. Depois de um dia na cama a lutar pela sobrevivência, rumámos ao Tour do Salar – viagem de jeep de quatro dias pelo meio de parques nacionais que culmina no Salar do Uyuni. O salar é incrível (tirámos as fotografias da praxe mas não estávamos muito criativos para mais), contudo, os dias até lá chegar não se ficam nada atrás, montanhas infinitas de todas as cores, lagoas com flamingos, grutas, entre outros.
Depois de embelezados com estas vistas, passámos por Sucre – cidade colonial -, onde fui vítima de mais uma agradável gastroenterite, desta vez menos silenciosa na chegada visto ter comprado um leite de quinoa na beira da estrada onde nadavam vários insectos, aquecidos pelos 32ºC que se faziam sentir. Não se pode dizer que o crime tenha compensado pois o referido leite era intragável, basicamente 70% de açucar, 25% água e 5% quinoa, para além de ter um sabor bem azedo de estar ali a fermentar ao sol sabe-se lá quantos dias misturado com o docinho dos kgs de açucar. Enfim, a aprendizagem foi: tentar não comprar bens perecíveis em embalagens abertas, sobretudo se tiverem bichinhos lá dentro, que estejam muito tempo ao sol, num futuro próximo. Fora isso, Sucre é uma cidade bonita.
Seguimos para La Paz, onde andamos no teleférico mais avançado do mundo, creio eu. Pelo menos o maior. Para além de estar localizada a 3600m de altitude, a cidade tem muitas colinas, conjunto de factores que faz parecer cada subida em La Paz a uma caminhada até ao Castelo de São Jorge com 20kg de pesos nos pés, 30kg nas costas e um pulmão a menos num lugar onde costumam ser dois – difícil, portanto. Por essa razão, os entendidos na matéria decidiram que o teleférico seria o melhor meio de transporte para a cidade. Está activo desde 2014 e funciona como se fosse um metropolitano mas a vários metros sobre a superfície da terra – tem várias linhas, percorre os principais pontos da cidade e periferia e custa uns 0.50€.
Para além do teleférico, em La Paz conhecemos o mítico poeta André Goes, brasileiro erradicado na Bolívia há nove anos. Com ele aprendemos que nunca se deve dizer “obrigado”, que vem de “obrigação” mas sim “grato” ou “agradecido” e “por favor” deve ser substituído por “por gentileza” – isto fazia tudo parte de um verso que o famoso poeta disse apaixonadamente depois de o Manel lhe ter agradecido em Português com o nosso anterior vernáculo. O André contou-nos também que havia quem agradecesse com “gratidão”, no Brasil, o que não é propriamente português correcto. Só se esqueceu de referir que eram cerca de 90% as pessoas que diziam “gratidão” em vez de “obrigado” ou pelo menos 90% das que conhecemos nas primeiras semanas por terras dos nossos irmãos. Nas primeiras ainda nos riamos, mas já se tornou demasiado banal.
Como todo o bom Brasileiro, André era bisneto de Portugueses mas não sabia de onde, talvez do norte. Adorava a Bolívia, pois “aí é que se podia viver bem” e, para além de se dedicar à poesia e à realização de filmes, estava empenhado num projecto cujo objectivo era o de construir um milhão de barquinhos de papel para enviar para o Chile, como protesto. Segundo o poeta, o projecto já tinha sido aprovado pelo Ministro da Defesa que lhe ia pagar 300 mil dólares pela faceta. Isto porque o Chile roubou o mar à Bolívia, no final do séc. XIX – todo o norte do Chile era região Boliviana até essa altura. Ou seja, 70% da economia do Chile, país mais rico (per capita) da América do Sul, está assente numa região (rica em minérios) roubada aos seus vizinhos há pouco mais de cem anos. Os Bolivianos perderam as minas e o mar e são hoje o país mais pobre (per capita) da América do Sul. Os pobres roubaram aos ricos, ricos ficaram e pobres deixaram quem ricos eram. Ou qualquer coisa assim.
Depois, demos um salto à Ilha do Sol e rumamos até ao Brasiuuuuuuuuuu.





































Muito giros os seus textos, querida. NÃO INVENTE no que toca a alimentação. Coma só produtos cozinhados e água engarrafada. Beijinhos
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