Bonito foi a nossa primeira paragem no país irmão. Entrámos por Corumbá, junto à fronteira com a Bolívia, passámos pelo Pantanal (acabámos por não ficar por ser demasiado caro para fazer qualquer coisa). Chegámos a casa do Daniel, amigo do coushsurfing, para pernoitar três dias e acabámos por ficar mais de duas semanas.
O Daniel é paulista mas, há uns dez anos, trocou a banca na sua cidade natal por uma vida mais pacata em Bonito, no meio da natureza. Montou um sistema bem simpático para mochileiros em sua casa com um verdadeiro camping no jardim, com casa de banho, cozinha, etc., colado a outras três casas que possui e que arrenda a turistas pelo airbnb. Ele tem o seu quarto ao lado do camping e utiliza uma das casas para fazer churrascos quando não a tem alugada.
Começámos por ser apenas três pessoas, quando chegámos – nós os dois e o Fabian, um Chileno que anda a viajar de bicicleta pela América Sul e que já está por aqui acampado há um mês -, para acabarmos a ser doze pessoas, na semana seguinte. Para além dos doze humanos, havia também o Messi, a tartaruga de estimação do Dani. Na segunda semana, viemos a descobrir que que o Messi passou uma transformação de género pois apareceu misteriosamente no jardim uma mini tartaruga, ao que tudo indica, filha de Messi. O pai da criança está até hoje desaparecido.
Logo que chegámos, jantámos com o Fabian e a Cornélia (nome digno da malvada dos 101 Dálmatas), amiga do Fabian. A Cornélia, sempre que agradece por qualquer coisa (ex. quando alguém lhe passa um prato), diz “gratidão” enquanto faz uma vénia. Foi um pouco dificil conter o riso ao início mas logo entrámos no ritmo. Agora até já praticamos este ritual entre nós. A Cornélia é bióloga, trabalha numa agência de turismo da cidade e deu-nos algumas dicas importantes. A maioria das reservas naturais de Bonito têm gestão privada porque ficam dentro de fazendas, então têm que se visitar através de um guia, o que reduziu os nossos passeios a dois, os bolsos a plumas e os rins a um. A parte boa é que não há grandes enchentes pois as entradas diárias são controladas, não há lixo no chão (e por lixo aqui entenda-se montanhas de lixo, sendo a prática comum é atirar quatro ou cinco latas de cerveja ou items similares pela janela do carro numa viagem de meia hora ou ida à cachoeira), etc. etc. Enfim, a Cornélia falou-nos um pouco sobre a região, lugares a visitar e cuidados a ter. Este último foi o ponto que retive melhor.
Ora então, alguns cuidados básicos a ter são, por exemplo, sacudir sempre a roupa, antes de nos vestirmos, não vá uma aranha venenosa estar lá dentro ou, não tão grave, uma carraça. Sim, carraças aqui são aos montes, a Cornélia arranca frequentemente carraças do corpo. Não foram precisos muitos dias para que a minha ideia de que isso só deveria acontecer às pessoas mais porquinhas ou que se roçassem frequentemente em animais fosse por água abaixo. Não sendo grande amiga de canídeos, rastejantes ou seres de quatro patas em geral e praticando uma higiene diária razoável, que consiste num mínimo de um banho diário, tendo já aumentado para dois aqui para uma melhor integração na sociedade brasileira – o Brasil é um país de pessoas muito limpinhas (média de banhos diários/pessoa: três a quatro) e que olham com preconceito para o europeu porco que nem sempre toma banho todos os dias (da minha experência actual, temos muito a agradecer principalmente aos franceses e espanhóis por esta fama pois banho nem sempre é com eles) -, eis que, com a rapidez de uma onça (termo local para jaguar), sem aviso prévio nem sinal, dou por mim a contemplar uma coisinha preta de formato pouco usual que se resguardava no quentinho entre o meu indicador e o dedo do meio. O Manel nem me deu tempo de questionar o que seria aquilo, não estando ainda segura de que fosse um ser vivo, e arrancou prontamente a coisa da minha mão. A rapidez da situação impossibilitou um diagnóstico mais preciso, contudo, com a dor que aquilo gerou ao ser arrancado, é possível, embora restando sombra para dúvidas, que tenha sido uma carraça. A minha primeira carraça. Saiu com a rapidez com que chegou, nem tempo tive de lhe dar ou nome ou insultá-la.
Outra espécie que devemos ter em atenção são as cobras. A Cornélia já teve uma cascavel em casa, por exemplo. Não era de estimação, foi mesmo uma intrusa que lhe entrou varanda adentro. Quando deu por si, tinha os seus cinco cães na varanda, a ladrarem, foi ver o que se passava e lá estava o bichinho inofensivo. Como é bióloga e tem alguma experiência em lidar com a bicharada, manteve a calma, chamou a sua matilha para dentro e telefonou a uns senhores que são uma espécie de bombeiros dos animais selvagens, vão buscá-los e devolvem-nos à selva. Depois desta informação útil sobre bicharocos, fomos dormir para a nossa tenda que por acaso tem um buraco de tamanho considerável para o exterior. Felizmente as cobras não se sentiram convidadas e o buraco foi mais utilizado por formigas, durante a nossa estadia. Em todo o caso, tivemos a oportunidade de nadar duas vezes com sucuris (ou anacondas, nome internacional do bicho – aquelas que aparecem na BBC vida selvagem a engolir animais grandes de uma só vez) nos dias seguintes. Segundo os guias, estas eram bastante inofensivas, só saem da sua caverna para pescar qualquer coisa mas no geral não estão muito interessadas em humanos. A Gertrudes (sucuri do balneário municipal de Bonito) foi apenas apanhada a comer um gatinho há algumas semanas.
Acabámos por alongar a nossa estadia em Bonito porque, entretanto, foram chegando mais mochileiros e formámos um grupo animado. Quando achávamos que já não havia lugar onde enfiar mais ninguém, o Daniel recebia um pedido de última hora de alguém que já lá tinha estado antes e acabámos por ser doze almas a acampar no jardim! Digamos que a capacidade da casa estava ligeiramente lotada com um casal de ilustres Portugueses, Fabi, o Chileno, Santi e Emy, um Colombiano e uma Americana que estavam também a viajar de bicicleta, Gonza e Romi, um casal de Argentinos que anda a dar a volta ao mundo, por agora de mota (com o pormenor interessante que vai cada um na sua mota!), um grupo de três miúdos Argentinos, Artur, um Brasileiro que esteve só de passagem por um dia pois já lá tinha estado antes e ia a caminho do Pantanal. Este último andava há um ano a viajar pelo Brasil, tinha o objectivo de passar um mês em cada estado – ainda tinha mais dois anos pela frente -, e começou a viagem com -40 reais na conta (!), ou seja, a negativos, levava 60 reais no bolso, mas tinha uma divida de 100 reais ao cartão de crédito ou uma coisa parecida. Ia vendendo um livro que tinha escrito sobre uma viagem anterior a África para se sustentar – só no dia em que esteve lá em casa vendeu três (também lhe comprei um) portanto deve render! Realmente são muitas pessoas que vamos conhecendo que vão viajar por tempo indeterminado com muito pouco, ou mesmo sem, dinheiro. Uns escrevem livros, outros vendem porta-chaves, fazem artesanato, malabares (95% dos malabaristas serão argentinos pela amostra actual), sites/gestão de redes sociais para pousadas, de tudo um pouco. Nós, que temos andando com um budget diário de 10EUR por cabeça, somos normalmente, os magnatas do grupo, que se dão a pequenos luxos como cozinhar com azeite!
Contudo, a melhor personagem que lá passou por casa foi mesmo Pepe Mujica, argentino de nascença, uruguaio de coração. Pepe na verdade chama-se Ricardo mas toda a gente o trata por Pepe, dadas as suas parecenças físicas com o ex. Presidente uruguaio. Entretanto a meio da estadia foi cortar o cabelo e ficou a parecer o Obelix, até fizemos umas montagens giras com o seu novo look. O Pepe tem 65 anos e já vem pela segunda vez passar uma temporada a casa do Dani. É reformado e tem quatro namoradas – uma em Humahuaca (AR), outra em Salvador (BR), a uma terceira algures em Espanha e a quarta no Mar de Plata (AR) -, sendo que elas têm todas idades compreendidas entre os 35 e 44 anos. Todos os dias fala com as quatro. Elas não sabem umas das outras mas está numa relação aberta. Visita cada uma, em média, 3x por ano (às vezes por um ou dois meses). Não tem uma preferida, gosta de todas por igual, segundo ele, o truque é não se afeiçoar a nenhuma, pois isso é que estragaria tudo. Já esteve caso durante 35 anos e não quer mais essa chatice para a sua vida. O Pepe só não pode ir aos EUA, pois é persona non grata. Quando trabalhava como mecânico de aviões para a LATAM, ia ao muito aos EUA e aproveitava para fazer uns biscates “traficando” Cadillac’s para a Argentina. Um dia, foi interrogado na praia pelo FBI, que andava por lá à caça de cubanos ilegais, e nunca mais conseguiu entrar na terra prometida! O Pepe ensinou-nos a jogar Truco, um jogo de cartas argentino, e assim se passaram vários dias em casa no Daniel, jogando truco e bebendo tereré (ou chimarrão), que é basicamente mate gelado (e nós a acharmos que chimarrão era carne) com algumas pausas para churrascos, nadar com peixinhos, cachoeiras e festas de anos.
Tínhamos planeado ir passar os meus anos a Foz do Iguaçu mas no dia anterior a sairmos, o Dani descobriu que eu ia celebrar as minhas 30 primaveras e fez questão de organizar uma festa à maneira, sendo que uns dias antes já tínhamos organizado uma festa de 30 anos para o Santi. Houve mais de 25 pessoas na festa (acho que a última vez que consegui fazer uma festa de anos com quórum foi na quarta classe!), pizza, caldinhos brasileiros, etc. O Manel fez uma tarte de pastel de nata e um vídeo muito giro com os amigos e a família a darem-me os parabéns (penso que terá sido um record pessoal de parabéns recebidos também, principalmente desde que as pessoas migraram do facebook para o instagram e lá se foram os alertas).
















Muito bom. Keep on writing. Beijinhos, afilhada.
Quechuando escreveu em sex, 20/09/2019 às 13:42 :
> teresaemanel posted: ” Bonito foi a nossa primeira paragem no país irmão. > Entrámos por Corumbá, junto à fronteira com a Bolívia, passámos pelo > Pantanal (acabámos por não ficar por ser demasiado caro para fazer qualquer > coisa). Chegámos a casa do Daniel, amigo do coushsurfing, ” >
LikeLike