Ricardo Pereira, o polícia bom e as Cataratas

O primeiro dia de boleia no Brasil correu às mil-maravilhas. Ficámos cinco horas na estrada a solicitar que alguém nos levasse, sem sucesso. Voltámos para casa do Dani para mais uma noite e fizemos uma despedida em grande, com direito a tacos para toda a gente enquanto assistíamos à Copa América.

Novo dia, mesma estrada. Depois de quase cinco horas passadas e de ninguém ter sequer parado para perguntar onde queríamos ir, apareceu um casal que, do nada, estendeu 70 reais (15€) ao Manel enquanto dizia “não desistam, vocês vão conseguir”. O Manel ainda tentou recusar, mas a senhora insistiu tanto que não deu hipótese. Eu assistia à cena sentadinha enquanto descansava à sombra da bananeira já que os 32ºC (ou mais) que se faziam sentir, acompanhados de um sol espanta lixívias, estavam a dar cabo da minha delicada pele ariana. Depois disto, quando já estávamos quase a desistir e a rumar à rodoviária em busca de um ônibus, aparece o nosso salvador, Ricardo Pereira. Ia direitinho a Foz do Iguaçu, sendo que nós estimávamos fazer a viagem em dois dias, saltando de boleia em boleia pois são mais de 700km por estada de faixa única, esburacada, que boas estradas tem este país, rica A1, ricas autoestradas portuguesas, viva as PPP, viva, viva.

Ricardo Pereira, a carona, tem uma vida bastante mais digna de novela do que qualquer papel interpretado pelo seu homónimo no país irmão. Saiu do carro para nos abrir a porta com o seu boné de polícia, logo que me sentei no banco de trás tinha um colete anti-balas para me proteger, em caso de necessidade. Ricardo trabalha para a DISE, a DEA brasileira, investiga casos de narcotráfico internacional em Corumbá, cidade-fronteiriça entre o Brasil e a Bolívia. Pode-se dizer que tem uma vida bastante agitada.

Já foi baleado várias vezes, na perna, na barriga, nas costas, entre outros, e tem confrontos armados quase todas as semanas. Às vezes fica vinte ou trinta dias escondido na selva, a comer ração, com a sua equipa, para apanharem os caminhões (em brasileiro correcto, gosto tanto desta palavra que acho que não me desfaço dela nunca mais) que levam a mercadoria. Cena de filme norte-americano portanto.

Enquanto passávamos por uma estrada sem ninguém, na escuridão da noite, contou-nos que já tinha sido perseguido por bandidos naquele mesmo lugar. Percebeu que um carro o seguia, pôs o seu colete anti-balas na janela a protegê-lo e, quando o carro passou, começou a disparar, ao que os adversários responderam com vários tiros. Acabou por conseguir apanhá-los quando vieram reforços.

Pela natureza do seu trabalho, tem que viver sempre a vários km de distância da família, normalmente a 300-400km. Agora vive a 800km de distância porque denunciou o chefe (o delegado) há alguns meses, quando este libertou um criminoso a troco de umas massas. Parece que tinha provas mas este país não está para justiceiros. Como represália, o chefe transferiu-o para longe, desanda daqui para fora e vai lá fazer queixinhas e brincar aos polícias para outra terra.

Ricardo muda de carro a cada mês e meio, para sua própria segurança – carro próprio, entenda-se, aqui a polícia civil não dá nada aos seus trabalhadores. As balas, o colete anti-balas e a pistola foram todos comprados com o dinheiro dele, para além dos sistemas de rádio, microfones, etc., que ele e a sua equipa utilizam para observar os suspeitos. Gasta um quinto do seu ordenado (de 1200€) em balas. Foram-lhe dadas balas uma única vez, há cinco anos, quando entrou para a unidade. Acho que conhecemos finalmente o significado da expressão “amor à profissão”, é isto, só pode ser isto, outra coisa é que não há-de ser.  Andam os polícias em Portugal a queixar-se por não terem fardas de substituição, os chiques. Segundo Ricardo, só a polícia federal é que tem orçamento para essas coisas, os outros que se amanhem. A polícia de investigação não leva com nenhuma fatia do bolo de mandioca porque, na realidade, o governo não está assim muito interessado em apanhar bandidos, onde é que que vai o país ganhar dinheiro?

Por falar em dinheiro, antes de ser polícia, Ricardo era advogado, profissão que lhe dava bastante mais pilim mas que não o entusiasmava muito. Viu-se que o que ele gostava mesmo era de adrenalina. Fomos o caminho todo a fazer rally, ultrapassando toda e qualquer viatura que nos aparecesse à frente, numa estrada cheia de buracos repito buracos e sem iluminação. Para juntar à festa, ele já não dormia há trinta e seis horas. Ainda se deixou convencer que o Manel levasse o carro, a duas horas de chegarmos, enquanto ele bebia as suas cervejas pois estava muito tenso, segundo o próprio, e precisava de relaxar. Segunda vez a conduzir o carro da boleia, já se está a tornar rotina. Sai primeira lata pela janela, sai a segunda (só ambientalistas por aqui), foi sol de pouca dura. Depois de uns vinte minutos de Manel ao volante (ai que paz, ai que segurança, o Manel conduz tão bem, tão bem que ele conduz repetido cem vezes seguidas mentalmente pela passageira traseira aka eu, nunca pensei em pensar isto quanto mais cem vezes, o mundo dá-nos sempre uma nova oportunidade), Ricardo quis saltar de novo para a condução pois começou a ficar ansioso por irmos “tão devagar”, mais concretamente a 100 km/h numa estrada com buracos, buracos com estrada e sem iluminação. Enfim, o Ricardo gostava de adrenalina, pertence a esse grupo sanguíneo.

Em todo o caso, foram dez horas bem passadas, apesar de ter ido agarrada à porta do carro para não voar em cada curva. Os 70 Reais ganhos pelo Manel deram para vários almoços e jantares, certamente temos que o pôr a trabalhar mais vezes, carinha laroca é de se aproveitar.

E lá chegámos às ditas cataratas, que até nem chateia muito olhar, nada de especial mas dizem que pertence lá às maravilhas não sei do quê.

PS: Para além de ser polícia, o Ricardo tira uma semana por ano para ir pescar, com amigos. Leva uma muda de roupa e não toma banho durante sete dias. Que delícia. Anseio pelo dia em que o Manel chegue a casa com uma proposta de programa tão divertido e asseado.

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