Elisandro e Curitiba

A viagem para Curitiba avizinhou-se complicada, a princípio, pois nenhum camionista nos queria levar, mas logo fizemos amizade com os trabalhadores do posto de gasolina, que nos ajudaram.

O Elisandro conduzia um “prancha”, caminhão de 25 metros com uma tábua que leva maquinaria. Com ele aprendemos que existem mais de dez espécies de caminhões: baú (fechados, com portas atrás, levam caixas com mercadorias, etc.), graneleiro (leva grão – trigo, soja, etc.) podendo ser bi-trem, tri-tem, conforme os eixos que tem (número de rodas), cassamba (leva calcário, pedras), cegonheiro (leva carros em cima e no meio, daí o apelido). Enfim, conhecimento muito útil, principalmente para que da próxima vez que a senhora da estação de serviço nos diga que talvez haja “um prancha” que nos possa levar, não fiquemos a achar que vamos num camião que transporte pranchas de surf, por exemplo. Não que isso tenha passado pela cabeça do Manel.

O Elisandro tem 32 anos mas uma vida bastante vivida de histórias e tragédias. É camionista há dez anos – faz tenções de ser advogado – e enveredou nessa profissão depois de uma namorada lhe ter morrido, pois queria estar longe de casa. O pai também lhe morreu há três meses e por isso não tem ido a casa, prefere estar na estrada. É casado há três anos com uma “alemã” de Santa Catarina, o estado menos brasileiro do Brasil (não que tenhamos visitado mas pelos relatos e a população local que conhecemos parece-me um comentário preciso). Santa-Catarina é uma espécie de colónia alemã (o sul do Brasil recebeu muitos imigrantes alemães e italianos no séc. XIX, que vieram trabalhar sobretudo para as plantações de café depois da escravatura ser abolida) e os seus habitantes têm muito orgulho na sua raça. Apesar de já ninguém da actual geração falar alemão, muitos vuvuzelam com bastante orgulho o facto de serem alemães (ou italianos mas conhecemos mais alemães), assim como quem quer dizer “eu não sou brasileiro, eu sou europeu como vocês”. Ainda não tive coragem de dizer a nenhum que, na europa, os brasileiros são ligeiramente mais amados que os alemães – eu não sou uma destruidora de sonhos sem escrúpulos. Enfim, em Santa Catarina festeja-se inclusive o Oktober Fest, dizem que é o maior fora da Alemanha. O povo de Santa Catarina é tão alemão que muitos chegam a ser bastante racistas em relação aos brasileiros mais escurinhos, sendo que mais escurinhos não são propriamente os pretos, esses não escapavam, mas até os simples moreninhos. O Elisandro que o diga, a família da mulher não morria de amores por ele, entre outra coisas, por não ser ariano como eles, raça superior. Em todo o caso, já conhecemos Santa-Catarinenses muito amáveis. O mais divertido é ouvi-los falar, é assim um brasileiro com uns toques de italiano, cantam a falar, de repente somos transportados para o Rei do Gado e estamos todos na fazenda do António Fagundes.

Voltando ao Elisandro, antes de ser camionista, foi militar por três anos, contudo, acabou por ser obrigado a sair porque foi dado como responsável pela morte de um colega quando dava um treino (qualquer ideia de que há alguma correlação entre o Elisandro e pessoas mortas é pura especulação). O Elisandro forçou-o a fazer um exercício na água, o colega tinha um problema pulmonar e bateu as botas ali mesmo, sendo que o Elisandro não estava a par da condição física do outro porque “todos mentem sobre as suas condições de saúde quando se candidatam ao exército”. Uma pessoa até para tirar a carta de condução precisa de um atestado médico mas depois só para ir ali ao exército fazer uns exercícios assim de média intensidade dá para aldrabar, estranho mundo.

A mulher do Elisandro em tempos também se fez à estrada com ele para maximizarem as receitas, um conduzia de noite e outro de dia, sendo que os camionistas ganham por viagem feita. A mulher agora tinha aberto uma florista e já não o acompanhava. O Elisandro tem também uma “namorada”, a senhora que trabalha na bomba de gasolina de Foz do Iguaçu que nos “facilitou” a boleia. Ficava sempre em casa dela quando passava por aquelas bandas.

Depois de um dia na estrada, tivemos que parar para dormir, ele no seu “caminhão” e nós, na falta de tenda – que finalmente adquirimos em Curitiba – e dado que o hotel mais próximo estava fora do nosso orçamento, dormimos debaixo do camião, dentro de uma rede (esteira) que ele tinha, apoiada nas laterais da viatura. Pode-se dizer que foi uma noite memorável, dormir é que nem por isso. Para além do extremo conforto, a temperatura caiu drasticamente durante a noite, fez muito frio. Choveu bastante também mas felizmente estávamos protegidos pelo camião. No dia seguinte, alvorada – para quem dormiu – às 5h da matina que vida de camionista começa cedo.

Já na estrada, o Elisandro partilhou que só não gostava muito de conduzir àquela hora (era ainda noite cerrada) porque havia alguns assaltos a camiões durante a noite. Uma vez tinham tentado assalta-lo, um carro posicionou-se do lado do camião e apontou-lhe uma arma enquanto o mandou encostar. Voltamos aos mortos. Elisandro pôs prego a fundo e passou por cima do carro, empurrando-o para a berma, onde terá perdido o controlo e depois caído ribanceira abaixo pelo que percebemos, ele não pareceu saber mais detalhes portanto estimo que os assaltantes tenham também batido as botas. Contou-nos esta história com a mesma tranquilidade com que nos oferecia chocolate. Em todo o caso, os ladrões também assaltam autocarros portanto, sendo que não há comboios, perigo por perigo mais vale ir de camião.  

Pelo meio da viagem ainda tivemos que fazer um desvio à delegacia de Mafra pois a seguradora do Elisandro exigiu que ele entregasse um papel a declarar que tinha o cadastro limpo para poder carregar o camião quando chegássemos a Curitiba. Aqui ficámos também a saber que o Elisandro tinha passado uns meses na prisão, em 2016, depois de ter sido acusado de qualquer coisa que envolvia uma arma (não percebemos todos os detalhes) por uma ex-namorada maluca, segundo ele tudo mentira. No impasse de conseguir o tal papel, deixámos o atrelado estacionado numa bomba de gasolina e fomos só de camião, pois 25m não é um comprimento muito conveniente para se andar no meio de uma cidade. Aqui percebi que é bastante melhor andar com um atrelado, pois torna o camião mais estável, para além de obrigar o condutor a ir mais devagar.

Uma curiosidade interessante sobre a condução no Brasil é que os condutores passam 90% do tempo em que estão a conduzir no “zappy” (whatsapp em linguagem local). Isto é uma média calculada por mim através de uma amostra de dez condutores que nos levaram até ao momento, com pouca margem de erro, portanto. Auriculares ou coisa do género ainda não chegaram aqui. Isto torna as viagens um pouco mais entusiasmantes, principalmente quando se anda em estradas todas esburacadas, sem uma pega para nos agarrarmos ou cinto de segurança que valha, e sabendo que os condutores dos outros carros também estão todos no zappy a comunicar com os seus. Acho que o problema reside também no facto de as pessoas por cá serem demasiado sociáveis, têm muitos amigos e há que manter o contacto.

Enfim, chegámos salvos a Curitiba, não sem antes termos apresentado a Ana Moura ao Elisandro, que muito o entusiasmou, e também o Tony Carreira, visto que ele é um fã de música romântica. Ainda tentámos um rock português e brasileiro da última geração que não o agradou muito, o negócio dele é mesmo o Sertanejo.

Ficámos amigos para a vida, ainda hoje, passados três meses, o Elisandro nos envia mensagens a perguntar “como estão meus amigos?”.

Curitiba é mais ou menos a europa dos brasileiros. A qualquer lado onde vamos, todos nos falam das maravilhas da cidade, super organizada, limpa, etc, etc. Não nos impressionou muito, é assim como comer manga em Portugal, verde e sem sabor, para vir a uma cidade organizada não precisamos de atravessar o atlântico. Contudo, tem uns jardins bonitos e fomos muito bem recebidos pelo Ricardo, um chileno tão simpático que mais parecia brasileiro.

3 thoughts on “Elisandro e Curitiba

  1. Ha, ha. Rede fantástica por baixo do camião. Era coisa que pudesse ter tocado a mim. Keep mailing those posts. Boa viagem. Beijinhos Chico

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    1. Agora já nos tornámos uns profissionais de cama de rede, estamos a atravessar o amazonas de barco em cama de rede!

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