Depois de uma semana aproveitando a vida cultural e gastronómica de São Paulo, uma breve passagem pelas praias de Ubatuba, cachaças de Paraty e pela Ilha Grande – onde o meu querido Manel me fez caminhar duas horas, de noite, com uma mochila às costas e outra à frente (toda a nossa bagagem), caminhar não é propriamente a palavra certa, visto que era um trekking, sobe e desce, sobe e desce no meio do mato, cansativo até para quem não está de mochila, sim já disse que estava com as minhas duas mochilas, uma à frente e outra às costas (?), isto para chegar a um parque de campismo mais barato, do outro lado da ilha -, chegámos finalmente à cidade maravilhosa.
Sinto-me em casa, é exactamente como nas novelas! Cidade maravilhosa, bonita bonita bonita, as pessoas todas a correrem no calçadão, vendedores ambulantes, muita água de coco, os homens todos de sunguinha e sarados a jogarem futevoley na praia, rodas de samba, só não vejo actores, onde estarão os actores?!
Nos primeiros dias, ficámos em casa do Armando e do Gabriel, do couchsurfing, em Botafogo. O Armando é professor de matemática e o Gabriel está a terminar o curso para lhe seguir os passos. Têm um quarto de hospedes e uma casa muito limpinha, provavelmente por serem gays, seres normalmente mais asseados que o macho hetero, pouco comum no mundo do couchsurfing. Uma mordomia portanto. Na nossa primeira noite no Rio fomos passear Copacabana e tivemos logo o privilégio de assistir ao nosso primeiro assalto em terras irmãs: um grupo de mitras a roubarem os turistas que passavam no calçadão, arrancando-lhe colares e pulseiras. Os ladrões estavam parados e iam tentando a sua sorte à medida que as pessoas passavam, e ninguém fazia nada pois têm medo que os faveleiros lhes façam uma “espera” mais à frente. Então as outras pessoas continuam como se nada fosse e uns metros mais à frente, onde estava um carro da polícia, vão lá contar-lhes o que se está a passar. Claro que quando a polícia chega já os assaltantes estão a milhas.
Depois de um dia no Rio, acabámos por ir uns passar uns dias a Búzios com os nossos anfitriões para casa de uma amiga deles e quando voltámos mudámo-nos para casa do Cláudio, um jovem de 50 anos muito boa onda e que, apesar de já estar em lotação máxima (tinha um pequeno T2, onde vivia com os seus dois filhos e estava já a alojar outros seis hóspedes), aceitou receber-nos. No seu quarto, estava ele e outros dois brasileiros (ele dormia numa maca!), nós conseguimos um lugarzinho no outro quarto apesar de o Manel ter ficado a dormir entre o quarto e o corredor e, na sala, ficaram os três espanhóis.
O Cláudio vive numa ilha perto da barra da tijuca – é um pequeno conjunto de ilhas, a dele é a Ilha Primeira, deve ter umas 30 casas, sendo que a Ilha Gigoia (a da frente) é a maior e já tem uns mil habitantes. Segundo o Cláudio, vivem aqui muitos artistas (não os ilustres da globo) e pessoas que querem tranquilidade. Este deve ser provavelmente o lugar mais seguro do Rio de Janeiro – os ladrões não têm por onde fugir por isso ninguém vem cá roubar. Para cá chegarmos precisamos de apanhar um barco desde o continente, sendo que a viagem demora dois minutos de barco, já que a ilha fica a uns cem metros de distância. Quando estávamos só os dois, a viagem era ligeiramente mais longa (15 min) porque, ao apanhar um barco para a ilha da frente (10 metros de distância), caminhar cinco minutos e depois apanhar outro barco para a ilha do Cláudio (5 metros de distância), poupávamos um real por pessoa (x dois eram são quase 0.50€) e nós não somos esbanjadores!
Verdadeiro especialista em bem-estar pessoal e empresarial, o Cláudio tem uma empresa que é contratada por multinacionais e PME para gerir o stress e o bem-estar dos seus trabalhadores. Para além disso, é fotógrafo, faz reiki, medicina chinesa, quiropraxia, dá aulas de meditação e lê o mapa astral das pessoas, o que nos levou a descobrir que o Manel é Venus em Marte (seres que se aborrecem rapidamente das coisas que fazem) e que se tivesse ficado mais meia hora na barriga da sua mãe teria saído gay! A informação relativa aos seus planetas serviu principalmente para que, quando agora peço ao Manel para que faça uma tarefa (doméstica ou outra) aborrecida, ele ripostar que é Venus em Marte, na tentativa de se descartar das suas obrigações. Já eu não consegui que o Cláudio me lesse o meu mapa-astral pois quando descobri a minha hora de nascimento não o apanhei desocupado.
O Cláudio é também um verdadeiro couchsurfer, viaja muito e adora receber pessoas. Levou-nos a passear um pouco por toda a cidade, fomos praia, à Urca, à Lapa, a diferentes exposições, subimos o morro dos dois irmãos no Vidigal, entre outros. Passear com ele é óptimo pois conhece muito bem a cidade e é muito despreocupado. O grande problema do Rio é mesmo a insegurança, a maior parte das pessoas anda na rua com medo de serem assaltadas, o que acontecia quando andávamos com o Armando, mas não o Cláudio. Ele fala com toda a gente, não anda com o telemóvel escondido preso nas calças, debaixo do umbigo (técnica local), então também estamos em todos os lugares seguros e sem preocupações.
Para além disso, estamos “proibidos” de cozinhar (o que normalmente fazemos sempre quando ficamos em casa de alguém), já que o Cláudio adora cozinhar e prepara-nos inclusive o pequeno almoço mesmo quando o próprio não toma o pequeno-almoço em casa. Passa o dia a comprar comida para nós e para os espanhóis quando vamos passear e não nos deixa sequer pagar os bilhetes de metro. Chegou a acontecer já todos termos jantado os restos do almoço, os espanhóis chegarem às 23h horas sem ainda terem jantado, e ele se pôr a cozinhar para os meninos. É assim um paizinho, mima muito os seus convidados. O lado mau é que muitos se acostumam e desleixam, a casa é uma pequena “zona” e ninguém parece fazer grande esforço em deixá-la limpa.
Por falar em limpeza, os espanhóis e banho são duas palavras que não se correlacionam muito, dois deles cheiram mal apenas e o terceiro fede ao nível de um mendigo. No primeiro dia, o Cláudio tentou por duas vezes discretamente mandá-los tomar banho.
– “Já todos tomaram banho?” perguntou ele antes e depois do jantar.
Nostros hermanos continuaram o que estavam a fazer, ignorando por completo a pergunta. No terceiro dia lá foram à água, mas o fedorento voltou a vestir a mesma roupa que tinha antes do banho, ou seja, saiu do banho já fedendo, aquela t-shirt parecia que já não via água há mais de um mês. Isto num país onde as pessoas tomam vários banhos por dia e andam sempre bem-cheirosas, nem no metro se apanha gente a cheirar mal mas têm que vir os europeus impôr o seu mau cheiro. São todos meio naturalistas, mas daqueles naturalistas cujo activismo se cinge ao combate ao banho e à depilação (ela tem também uma pequena floresta debaixo dos braços), parece-me pois não os vi a defenderem qualquer outra causa. Devido a este repúdio de alguns europeus pelo banho, no outro dia vimos um perfil de uma miúda no couchsurfing (que recebia pessoas em sua casa) que dizia o seguinte:
– “Será muito inconveniente para mim se eu tiver que o mandar tomar banho. Belém é uma cidade húmida e onde faz muito calor, por favor tome banho, pode tomar os banhos que quiser em minha casa” !
Para além disso, a espanhola acha que é uma Whitney Houston mesmo não tendo qualquer talento para a cantoria, eles passam o dia a tocar guitarra, o que se torna ligeiramente irritante na maior parte do tempo, às vezes estamos todos a jantar ou a meio de uma conversa e ela começa a cantar ou um deles se põe a tocar guitarra, a falta de noção de alguns membros desta nova geração youtube faz-me pensar que realmente estou muito velha, no meu tempo havia mais bom-senso.
Os dias passados em casa do Cláudio coincidiram também com o nosso maior número de abraços dados por dia a alguém. Pode-se afirmar que o Cláudio gostava de abraços. Era normalmente um abracinho de manhã, ao acordar, outro quando saiamos de casa, outro quando voltávamos e um último quando nos íamos deitar, sem contar com os abraços das fotografias, pois apelava muito a que estivéssemos todos abraçados sempre nos tirava uma fotografia, o que foi particularmente difícil no dia em que passeámos com os espanhóis devido ao seu fedor mas engolimos em seco e lá demos o amor que o Cláudio nos pedia. Vezes sem conta. Noutra ocasião, assisti ao maior abraço alguma vez dado perto de mim, entre o Cláudio e o seu amigo chileno, que entretanto chegou – foram mais de cinco minutos seguidos a dar um abraço e o calor já apertava mesmo para quem estava de fora.




















Ha, ha, ha. Muito bom, afilhada. Continuação de boa viagem. Beijnhos
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