Tivemos que pôr o pé no acelerador e seguimos para Brumadinho para visitar o Inhotim, o maior museu a céu aberto do mundo. Aqui o camelo tem andado o mês todo a trabalhar num projecto de consultoria para Portugal, que termina na próxima semana, e temos que estar em Salvador também na próxima semana porque me inscrevi num curso de meditação por lá, já há dois meses, a achar que daria tempo suficiente de chegar. Contudo, dada a dimensão do país e a qualidade das estradas que levam a que um percurso de 200 km demore cinco ou seis horas, estamos ligeiramente atrasados e vamos ter que saltar vários lugares que queríamos conhecer, como outras cidades e parques naturais em Minas Gerais e todo o litoral norte, entre o Rio de Janeiro e a Bahia.
Em Brumadinho, fomos recebidos pelo Ian, a Ana e o seu filho de três anos, Igor, uma criança muito querida, faladora e bem-disposta. São os dois de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, e vieram para aqui viver há uns dois anos porque a família do Ian tem farmácias e ele abriu uma aqui.
Brumadinho esteve muitas vezes nas notícias este ano porque sofreu uma tragédia com o rompimento de uma barragem, que matou quase 250 pessoas – ainda hoje estão à procura de alguns corpos. Sendo uma cidade relativamente pequena, toda a gente tem alguém da sua família ou amigo que morreu no desastre.
Nem tínhamos pensado vir aqui, na verdade só ouvimos falar do Inhotim (o único ponto de interesse numa visita Brumadinho) quando estávamos em Ouro Preto mas falaram-nos tão bem que achámos que valia a pena. É um museu bastante recente, foi inaugurado em 2006 e são cerca de 780 hectares de terreno, com uma coleção privada de arte contemporânea com obras enquadradas no meio da natureza e outras em salas. Tem um pouco de tudo, maioritariamente escultura mas também fotografia, música, pintura ou artes plásticas.
Passámos dois dias a visitar o museu e mesmo assim andámos relativamente rápido, não tão rápido quanto os brasileiros (que entram numa sala, não lêem nada da explicação – sendo que tratando-se de arte contemporânea é especialmente importante ler se queremos perceber alguma coisa do que estamos a ver -, tiram a foto para o instagram e saem) mas rápido quanto baste. O museu é mesmo muito grande apesar de não se visitar todo o terreno, naturalmente. Vimos espécies de árvores e vegetação quem vêm de todas as partes do mundo, bananeiras que dão bananas cor-de-rosa (disseram-nos que eram mais bonitas que saborosas), mais de quinze variedades de palmeiras, muita coisa mesmo, e as peças estão todas em grande harmonia com a vegetação. Valeu a pena o desvio!
Depois da visita ao muse, começámos a nossa jornada para norte rumo à Bahia, com uma paragem em Diamantina, no norte do estado, uma cidade que também entra no roteiro de cidades coloniais de Minas Gerais mas bastante diferente de Ouro Preto, também é uma cidade universitária mas mais colorida, moderna e com um ar mais leve.
Ficámos em casa do Victor Hugo (nome imponente, este país devia ter um concurso de nomes criativos), um mineiro natural de Uberlandia (imagino o poder de marketing que a Uber tem pelas bandas), mas que aqui vive há seis anos, desde que veio para cá estudar. O Vitor é muito boa onda, a único aspecto menos positivo foi a casa não levar sonazol há uns bons tempos (fez-nos ter saudades da casa do Claudinho, imaginem o brinco que estava). No nosso quarto, habitavam umas cem melgas, que tentávamos matar de noite (com uma taxa de sucesso de cerca de 20%), para além das óbvias pulgas e o Manel encontrou uma carraça na perna. Como também eu já fui vítima deste bichinho (se bem que no campo, em Bonito, não na cidade), não poderei fazer grandes comentários em relação ao seu asseio como causa directa do aparecimento da dita, até porque justiça seja feita, ele tem tomado banho todos os dias, pelo menos passa-se por água, sei que sai molhado. O mais provável é ter vindo do colchão onde dormimos que não via água com tanta frequência.
Mas o Victor era mesmo muito boa onda e um grande conversador. Levou-nos a jantar comida mineira ao mercado local, onde estava a dar um show de pagode, comemos os mais puros queijos de minas (um deles era uma espécie requeijão fumado, muito bom), fomos ao parque Biribiri no seu carocha amarelo – com muito estilo – onde nos banhamos em várias cachoeiras bonitas, e ainda tivemos oportunidade de ir ao boteco da esquina, às 11h da manhã (a farra por aqui começa cedo), ouvir um amigo seu de 65 anos cantar uma música para a sua mãe, que incluía uma parte gestual em que sempre que dizia a palavra mãe punha a língua de fora.
No Sábado estavam a criar um memorial para o João Gilberto (que morreu há um mês), pois corre a lenda de que foi em Diamantina que João Gilberto inventou o bossa-nova, depois de ter saído fracassado de uma orquestra no Rio de Janeiro. Diamantina é também a terra do Juscelino Kubitschek, muito provavelmente o presidente mais popular da história da república do Brasil.
Gostámos muito de Diamantina, só tivemos pena de não ficar para a vesperata, que ia ter lugar no fim-de-semana seguinte. É um evento que acontece na cidade um fim-de-semana por mês, durante esta época, onde se reúne um coro e orquestra nas varandas de vários edifícios da praça central e o público fica lá em baixo, na praça, ou seja, os artistas estão à volta do público. Pareceu bem interessante mas tínhamos que chegar a Salvador em dois dias.



















