Tempo Zen

Chegados a Salvador, passámos dois dias em casa do Dimitri, um amigo dos meus avós, deixámos lá as coisas para mais tarde regressarmos e foi cada um para seu canto, sendo que eu fui praticar espiritualismo ao mais alto nível para o meu curso de meditação vipassana e o Manel foi trabalhar para um hostel em Imbassai, porque o curso só aceitava mulheres, women power!

Posso dizer que estou um pequeno buda, depois de dez dias passados no mais puro silêncio, sem telemóvel, livros, música ou um caderno (nem exercício se podia fazer), a acordar às 4h da matina todos os dias para meditar (umas doze horas por dia) e a aguentar ir para a cama cheia de fome, já que a última refeição – um cházinho ou leite vegetal e duas frutas – era servida às 17h . Tenho a dizer que apanhei lá muita indivídua que não cumpria a regra das duas frutas, como por exemplo a gordinha da minha mesa que se deliciava sempre com quatro ou cinco mangas (pequenas, não se ache que o manjar era assim tão farto) enquanto o meu estômago roncava para todo o recinto ouvir.

A partir do terceiro dia, desenvolvi uma técnica para colmatar a minha fome noturna, dentro das regras estabelecidas por Buda. Como referi, tínhamos direito a duas frutas e leite vegetal (de aveia ou coco), sendo que no caso do leite não estava especificado o número de copos que poderíamos beber. Tendo eu encontrado esta lacuna na legislação, aproveitei-a em benefício próprio, forrando o meu estômago com, não um, não dois mas três valentes copos de leite, sendo que o primeiro era de coco (o meu preferido) e os outros dois de aveia, não tão bom mas muito mais consistente e de comida consistente se faz a mulher. As outras a tentarem substituir o seu arroz e feijão com extra fruta, a julgarem que se estavam a alimentar quando o ser humano digere a fruta em vinte ou trinta minutos e aqui a magricelas, pareceu-me ser a única a aproveitar-se deste lapso da Direcção para se suster com aveia, nobre cereal que alimenta o homem há vários milhares de anos. Calculo que esta descoberta me tenha dado, em média, mais uma hora de sustento comparativamente às demais, ou seja, menos uma hora na sala de meditação com o estômago a roncar no período que se seguia, sendo que a hora de deitar era às 22h. Deitar este que era unicamente sinónimo de ir para a cama e não de, efectivamente, dormir, já que a cabeça fica tão agitada da meditação que é impossível adormecer nas as ou três horas que se segues, o que me deu uma média de sono diário – já disse que a alvorada era às 4h? – de três a quatro horas.

Apesar desta estratégia, a última refeição de verdade era às 11h da manhã, horário estrito de almoço, quinze minutos de atraso e vais ver se te deixam algo para comer, passei por essa experiência no primeiro dia porque resolvi ir tomar banho antes da hora do repasto, alonguei-me um pouco a pentear os meus longos  e bonitos cabelos e a comidinha já era, fiquei confinada a arroz com um resto do molho que tinha sobrado da travessa do almoço que sabe-se lá o que foi, pois não se pode falar para perguntar.

Tendo em conta este fatídico início, a partir do segundo dia, estava sempre na fila da frente das guerreiras da cantina, aquelas que já estavam posicionadas no jardim, prontas para apanhar qualquer Obikwelu que lhes passasse pelo caminho, dez a quinze minutos antes de tocar o sino para o almoço.

Outra nobre regra do centro era a proibição de matar seres vivos. Na sala da meditação, havia um “kit salva insecto” que consistia numa folha plastificada e num tupperware transparente redondo (como aquele que se têm no micro-ondas para não o sujar). De cada vez que aparecia um insecto, ou pequena rã, muito comum, caçávamo-los com o kit e devolvíamo-los à natureza. O grande problema eram os mosquitos, que estavam também incluídos neste grupo. Dado que ultimamente entrei para o grupo de pessoas esquisitas, isto é, alérgicas a coisas, neste caso a picadas de mosquito (tenho feito grandes babas por cada picadinha destes seres) aliado ao facto de não conseguir dormir com zumbidos – mesmo com tampões eles faziam-se ouvir -, e depois de várias picadas em diferentes zonas do corpo (eu tentei, juro que tentei), tive que infringir esta regra por três vezes quando, na solidão dos meus aposentos (aproveitei não estar por perto nenhuma colega de quarto), aniquilei três valentes melgas, sem dó nem piedade – no momento do acto. Seguiu-se um período de realização pessoal misturado com sentimentos de culpa, que superei passados alguns dias. Findo o curso, decidi que não irei adoptar esta regra na minha vida futura. A vida é feita de decisões e, infelizmente, sou eu ou eles. Escolho-me a mim.

Para além destas pequenas peripécias e de ter que partilhar “casa” durante dez dias com pessoas que têm um problema grave em lembrarem-se descarregar o autoclismo (não era uma questão política, vim depois a confirmar), de alvorar às 4h da matina (outra regra que também infringi duas vezes nos últimos dias por lapso voluntário/involuntário, só acordei às 6h, mesmo a tempo do pequeno almoço por coincidência, eu e 80% das minhas colegas de casa) para passar doze horas por dia sentada em posição chinês a tentar meditar, com sono, enquanto várias colegas, inclusive a de trás, arrotava para toda a sala ouvir a cada cinco minutos, ou ao som da Marília Mendonça (ela persegue-nos) e do programa do Porchat que vinha da televisão do vizinho da frente e que muito provavelmente se ouvia na cidade mais próxima, de todas as dores no corpo e nas costas consequentes de tal posição, para além disto correu tudo bem, uma experiência a repetir, recomendo. Já estamos a pensar em fazer outro na Colômbia ou no México, que dê também para o Manel e onde eu poderei aprofundar o meu estado zen. Até lá só tenho que continuar a praticar duas horas por dia, uma de manhã e outra à noite.

A parte do nobre silêncio foi mesmo o mais fácil e uma regra que se revelou fundamental. No último dia, já foi permitido falar e o recinto tornou-se num autêntico galinheiro, inclusive a sala da meditação, local sagrado de silêncio absoluto, onde até o andar devia ser em bicos de pé (de porcelana, se possível). Sessenta mulheres, sessenta mulheres brasileiras – um factor importante -, proibidas de usar o seu aparelho vocal durante 9,5 dias consecutivos, privadas do seu arroz com feijão, da sua novela das 20:00, da sua academia, de apanhar banhos de sol na praia ou no jardim ou simplesmente do seu instagram (será que é possível ressuscitar uma conta depois de dez dias de hibernação?!). O resto é (foi) conversa.

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