Acabámos por ficar um mês em Salvador, em casa do Dimitri, sendo que depois de voltarmos das nossas tarefas – eu da meditação e o Manel da praia -, ficámos por lá mais três semanas que foram bem agitadas.
O Dimitri é colecionador de arte, fotógrafo, entre outras coisas, e tem uma das casas mais giras onde já estivemos. A casa é um verdadeiro museu de arte popular baiana e mundana (o Dimitri é Francês mas cresceu em Marrocos por isso tem muitas coisas de lá, para além de viajar muito e trazer várias peças de um pouco de todo o mundo), já apareceu em várias revistas, tem um anfiteatro a céu aberto e foi inclusive considerada casa-museu pela autarquia (está aberta para visitas marcadas).
Salvador é diferente de todas as outras cidades brasileiras onde já estivemos pelas suas influências africanas. Cerca de 80% dos habitantes são de raça negra – vinham sobretudo escravos de Angola, Nigéria e Benín. Por essa razão, a arte popular é africana, a religião predominante o camdomblé e a comida típica, também de origem africana, com mais tempero, sabor e muitos pratos que não se encontram noutros lugares. Algumas das iguarias locais são abará e acarajé – uma paste de feijão fradinho (parecido com o frade), o primeiro cozido e o segundo frito, em formato de rissol -, moqueca de peixe (a original), vatapá, caruru, entre outros.
Depois de uma primeira semana de voltas turísticas, decidimos ir trabalhar para restaurantes locais para aprender a fazer alguns dos pratos. O Manel foi para o Hotel Vila Bahia, cujo dono é amigo do Dimitri e eu fui tentar a minha sorte (sendo bem sucedida!) ao Ramma, um restaurante de cozinha natural, em que a maioria dos pratos eram adaptações vegetarianas das receitas bahianas tradicionais.
Nas horas vagas da cozinha, entretemo-nos a fazer pastéis de nata, receita que aprendemos na internet, e que aprimorámos durante a nossa estadia, para cumprir o meu sonho de vender pastéis de nata nas ruas do Brasil (!), o que acabou por acontecer durante dois dias, a muito custo do Manel, insatisfeito com esta nova profissão de vendedor ambulante. As primeiras horas não correram tão bem pois muitas pessoas não pareciam saber o que eram “pastéis de nata” mas logo descobrimos o truque, era gritar “pastel de belém, de Portugal” em vez de “pastel de nata”. Ficaram tão bons que acabámos também a fazê-los nos respectivos restaurantes onde trabalhámos.
E, nas horas vagas da pastelaria, a Camila, amiga chilena do Dimitri que mais parece bahiana, teve a excelente ideia de organizarmos um workshop de padaria artesanal (de fermentação natural) em sua casa, para as pessoas do bairro, depois de ter experimentado o nosso pão (o Manel no seu desespero sem nada que fazer no hostel onde foi trabalhar enquanto eu estive na meditação – não está habituado a estar sem mim, coitadinho, ficou desorientado – aprendeu a fazer pão no youtube e agora acha que me dá dicas e ensina, anda uma pessoa aqui a tirar cursos e mestrados em padaria!). Acabámos por fazer dois dias de workshop, com oito participantes (amadoramente só o publicitamos no dia anterior senão poderíamos ter tido muitos mais). Foi um sucesso e ainda ganhámos uns trocos, sendo a foccacia a estrela do dia! Agora que nos profissionalizámos nisto vamos correr a América Latina a ensinar os locais a fazerem pão de jeito, sem químicos e dezenas de ingredientes, e talvez quando cá voltarmos daqui a uns anos, encontremos um pouco mais do que o típico “pão francês”, um género de papo seco sem graça que, a par das baguetes, é dos poucos pães que se encontram à venda pelo país, sendo que só em São Paulo encontrámos coisas um pouco melhores. Outras espécies de pão local, mas menos disponíveis, são o “pão italiano”, um género de pão de mafra, ou o “pão australiano”, com trigo integral e mel. Gosto particularmente da categorização de pães por países, sendo que nunca encontrei nada parecido com este pão francês em França ou com o pão italiano em Itália.
Entretanto, o Dimitri foi de viagem para Portugal logo na nossa segunda semana e ficámos em sua casa com a Marta, e empregada dorminhoca que passava a maior parte do dia desaparecida no andar de cima, afinal estamos praticamente em África pelo que o ritmo aqui é diferente (aposto que ficava lá a trabalhar e eu é que sou má língua, começo logo a imaginá-la a dormir), a Puki, cadela quase centenária que fazia xixi pela sala diariamente, deixando o Manel muito zangado – ele achou que iria conseguir educá-la (repito que a cadela era quase centenária) mas não foi bem sucedido -, e a Maria Helena, amiga paulista do Dimitri que lá estava a passar uma temporada.
Para além de nos ter contado todos os enredos das novelas da globo dos últimos dez anos, que tínhamos perdido, a Maria Helena partilhou algumas histórias interessantes sobre a realidade brasileira. Vou tentar ser um pouco mais resumida que ela a contá-las porque ela falava, falava, falava, como acho que nunca vi ninguém falar . Ora então, a MH era professora universitária numa faculdade privada e em tempos tinha sido orientadora do trabalho de final de curso de uma aluna. Ao que parece, a aluna esteve todo o semestre sem lhe mostrar nada do trabalho e a Maria Helena só o viu no dia da defesa, para um painel de jurados. O trabalho estava uma valente porcaria, o que ela fez questão de dizer à aluna antes da apresentação. Em todo o caso, o júri decidiu dar-lhe a nota mínima para passar, mas era uma sexta-feira o resultado só sairia na semana seguinte, pelo que a aluna foi para casa sem saber se tinha passado ou não. Corre o dia de Domingo (gosto particularmente desta expressão brasileira, o dia da semana vem sempre com prefixo, dia de Segunda, dia de Terça) e a Maria Helena recebe uma chamada no seu telefone fixo do pai da dita aluna, que era militar, “avisando-a” de que, desse por onde desse, a sua filha iria passar naquela prova e concluir o curso na semana seguinte, calculando-se que haveria represálias se esta ordem não fosse cumprida. Parece que é uma prática comum por aqui, pais de alunos de colégios/universidade privadas fazerem ameaças aos professores e como as pessoas sabem que a hipótese da ameaça vir a concretizar-se é muito alta, preferem não arriscar. Brasiuuu!
Também segundo a Maria Helena, nos recantos mais provincianos do país, há matadores profissionais (profissão ainda vigente e do conhecimento geral da vizinhança) que cobram a módica quantia de 20 reais para matar uma alminha, 4€ portanto. O pf (prato feito) custa esse valor em muitas cidades, digamos que é uma pessoa por um almoço, em média. Vá, em Salvador, há gente a vender “quentinhas” de almoço caseiro a 5 reais, o mesmo que nós cobrávamos por pastel de nata. São quatro pastéis de nata então. Ninguém há-de ficar rico a matar pessoas, ou há um amento de ordenado ou não me parece que seja uma profissão de futuro.O último dia em Salvador foi algo atribulado, pelas notícias de que iria haver uma greve da polícia em todo o estado. As pessoas estavam todas exaltadas, parecia que ia faltar comida. Segundo relatos, na última greve da polícia em Salvador, há alguns anos, morreram mais de duzentas pessoas! Dizem que os bandidos aproveitam todos para sair à rua e, mesmo quem não é bandido, se torna gatuno nesse dia. Os restaurantes onde trabalhámos decidiram logo que iriam fechar em caso de greve e disseram-nos que era também muito desaconselhável viajar pois as estradas iriam estar perigosas e até mesmo sair de casa. Felizmente, o governo chegou à acordo com os grevistas e lá cancelaram a greve, pelo que pudemos seguir viagem para Recife.










Muito bom. Go on Quechuando. Beijinhos
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