Recife, a terra dos tubarões

Ficámos quatro dias em casa do Marlon, “Marlo” para os porteiros do prédio. O Marlon tem 54 anos e é professor de Francês na universidade – mais um professor, nunca tive tanto contacto com a espécie como no Brasil. Já viveu em França e vai ao Porto todos os anos visitar amigos que tem por lá.

O Marlon foi um anfitrião muito simpático que nos levou a passear pela cidade, conhecia muito bem a história de Recife e ainda nos cozinhou uma deliciosa moqueca de banana da terra. Recife é uma cidade interessante, com uma cultura e arte popular muito própria. Para além de Salvador, foi onde vimos o artesanato e as esculturas mais bonitas. Tem também uma música/dança local, o trevo, onde as pessoas dançam com uma sombrinha. Para além disso, os pernambucanos a falar parecem portugueses, dizem “bom dia” em vez de “bom djia”, como noutros lugares do Brasil, e “diferente” em vez de “djiferenti”).

Uma das atracções da cidade é um mercado de artesanato que fica dentro de uma antiga prisão, onde cada cela é uma loja, e outra a fundação Francisco Brennan, um escultor local, que tem peças muito singulares (ver foto). Fomos também a Olinda, uma pequena cidade próxima que reserva muitos traços coloniais e à praia da boa viagem, que dizem ser a praia do mundo com maior incidência de ataques de tubarão, talvez por isso não estivesse muito cheia. Não avistamos qualquer barbatana mas, por via das dúvidas, demos mergulhos bem rápidos, entrar molhar e sair, não fosse o predador ter um radar activado para beldades de raça quase ariana, pele esbranquiçada e sardenta e morenos com ar árabe de perna musculada e carnuda.

Um dos pontos altos da estadia foi quando o Marlon nos leu algumas das mensagens que recebia no couchsurfing, de pessoas que lhe pediam para ficar em sua casa. Relembro que o couchsurfing é uma plataforma que promove o alojamento de pessoas em casa de locais que não envolve qualquer troca de dinheiro, sendo que a finalidade é que haja uma troca cultural entre as duas partes e qualquer pessoa pode usar a plataforma como anfitrião ou visitante, no caso do Marlon ele era só anfitrião. Cada pessoa tem um perfil, com informações gerais sobre si e referências de outras pessoas que já o alojaram ou que ficaram alojados em sua casa e quando enviamos um pedido para ficar em casa de alguém é suposto enviarmos uma mensagem a apresentarmo-nos, explicar ao que vamos, por que razão gostaríamos de ficar com aquela pessoa, etc. Em todo o caso, esta prática comum nem sempre é cumprida por todos e o Brasil é um país onde a falta de noção é muito habitual. Já nos tínhamos deparado com muitos perfis de anfitriões a exigir que lhes enviassem uma palavra secreta no início das mensagens, para mostrar que tínhamos lido o seu perfil, algo estranho e nunca visto noutros lugares. Mas agora tudo faz sentido!  Exemplos de mensagens:

  • – “Olá, quero ir para Recife.” Fim
  • – “Olá, eu, o meu marido e os meus dois filhos gostaríamos de ficar em sua casa por 45 dias. Vi que tem um neto “ – o Marlon tem uma fotografia de perfil com o seu neto – “acho que os meus filhos se vão dar bem com ele”. Fim.

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