Pipa, uma colónia argentina

Em Pipa finalmente percebemos porque é que os brasileiros dizem que as praias do Rio de Janeiro e de São Paulo tem a água “géeeelada”. Realmente, ao lado destes 25ºC ou 28ºC também me parece. A temperatura da água, que nos levou a passar mais tempo no mar do que o costume, levou-me a uma descoberta inusitada. O mar estava bom. Manel banhou-se por muito tempo. Não queria sair da água. Sabe tão bem. Boiar é tão bom. Agora experimentem ler a primeira palavra das últimas cinco frases. Pois é, foram precisos mais de oito anos de idas à praia, viver numa ilha por vários meses, um matrimónio contraído, entre outros, para eu descobrir que o meu querido Manel não sabe boiar. Tenta, tenta mas vai ao fundo. Na sequência desta descoberta, teve lugar uma aula teórico-prática que, infelizmente, não obteve os resultados esperados. De facto, não me lembro de ter tido propriamente aulas para boiar, achei que quem soubesse nadar saberia boiar porque é uma coisa quase inata mas já vi que estava redondamente enganada. Em todo o caso, vamos continuar com as aulas. Um dia, Manuel saberá boiar e poderá aventurar-se a vir ao de cima por esses oceanos fora.

Não conseguimos couchsurfing por isso ficámos numa “beach house”a 20min da praia! Por 10€/noite por um t2, percebemos logo que não seria em cima da praia, em todo o caso gostei que tivessem mantido o letreiro de “beach house” na porta da casa de qualquer das formas.

Pipa é uma colónia semi-argentina (10% da população é argentina – facto – e 90% dos turistas, pelas minhas contas, deverão ser argentinos ou uruguaios). Na praia, só se fala espanhol sendo que todos os vendedores ambulantes são de uma destas duas nacionalidades. A vila é simpática, as praias bonitas e espaçosas (dá para perceber por que é que tantos portugueses, povo com requisitos elevados no que toca a férias de praia, vêm para aqui) e os preços bem em conta. Achámos que, por se tratar de um lugar muito turístico, os preços iriam ser muito mais altos que noutros lugares mas estávamos enganados, até aqui se encontra pf (prato feito) por 15 reais, que naturalmente não experimentámos porque fazemos a nossa própria marmita em casa mas não está nada mau.

Apanhamos grandes banhos de sol, mais de sombra do que sol na verdade porque esta carinha laroca não se faz de escaldões, o sol envelhece a pele e nós queremos manter a juventude. Para além disso, ainda dei uma aula de bodyboard ao Manel (que ficou a ver da areia porque da última vez que tentámos uma aula prática, encontrei-o sentado à beira-mar, ofegante, quase a desmaiar de tanto esforço físico, passados 10 minutos de termos começado, já lá vão sete anos e não caminhamos para jovens portanto é melhor não arriscar) e nadámos com golfinhos, um sonho de infância, apesar de não lhes termos tocado. No primeiro dia de praia, quando no deliciávamos nas águas quentes do mar, vimos uma barbatana suspeita ao nosso lado. Saímos prontamente da água, sem alaridos, porque dizem que o pânico atrai os bichos (se fosse realmente um tubarão teria sido um gesto bastante simpático para com os demais banhistas, que deixámos à mercê de uma mordidinha) mas mais tarde viemos a perceber que o mar estava minado de golfinhos, de modo que, o mais provável é ter sido simplesmente um golfinho. Há inclusive uma baía dos golfinhos muito próxima, onde se vêem imensos golfinhos a nadar ao final do dia.

Para além disto, conhecemos a grande família Zapp, que foi assim mais ou menos como conhecer um ídolo. Isto porque, parecia que sabíamos tudo sobre a vida deles apesar de nunca nos termos conhecido. Os Zapp são uma família argentina que viaja o mundo há 20 anos num Ford T de 1928! Percebi que estavam em Pipa já há alguns meses através das redes (afinal o instagram também tem alguma utilidade) e enviei-lhes uma mensagem.

 “Conhecemo-los” em casa do Luis em Mendonza, Argentina, porque ele tinha um livro sobre a primeira viagem deles, da Argentina ao Alasca, já no dito carro. Na altura eram só dois, o Herman e a Cande mas no decorrer dessa viagem tiveram o primeiro filho, nos EUA (e conseguiram tê-lo de forma gratuita depois de muito custo, algo inédito naquele país) mas hoje têm quatro filhos, cada um nascido num país diferente e com um nome alusivo ao país (agora só me lembro de Wally, que nasceu na Austrália e Pampa, nos EUA). Aumentaram um pouco o carro para que coubessem os seis lá dentro, os filhos fazem ensino à distância, sendo que o mais velho, de 17 anos, quis experimentar este ano ir para à escola pela primeira vez, e está agora em Buenos Aires. Vivem com o dinheiro que ganham do primeiro e único livro que escreveram, o tal Argentina ao Alasca, que vendem principalmente em mãos nos países por onde passam, mas também na internet, e de muita boa vontade das pessoas, sendo que o carro é especialmente chamativo não só para os amantes do mundo automóvel como para a população em geral. Os mecânicos não lhes cobram pelas revisões, os grupos de colecionadores de caros juntam-se para lhes pagaram peças que precisam, toda a gente os acaba por ajudar de uma forma ou de outra. Nós fomos também “Zappeados” na noite que fomos a sua casa, acabámos a corrigir a tradução ES-PT de um livro de banda desenhada que um dos seus filhos escreveu e desenhou!

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