Jericoacoara e os Lençóis Maranhenses

Jeri (como é conhecida nacionalmente) é uma vila um pouco diferente de tudo, as ruas são de areia de praia e circulam poucos carros, para aqui chegar tem que se vir de 4×4. Chegámos às 18h prontos para ir dormir tal era o cansaço mas entretanto ficámos numa pousada que organiza uma roda de samba todas as sextas-feiras até às 2h da manhã, de modo que dormi das 19h às 23h e depois tive que me juntar à festa – se não os podes vencer, junta-te a eles -, enquanto a Manel dormia, como sempre. A praia não nos impressionou muito. É bonita apesar de ventosa mas tem imensas algas, muita gente e pouco espaço na areia principalmente quando a maré enche. A maior parte das pessoas fica nos bares de praia do pontão, sendo que os brasileiros não são muito de estender a sua toalha na areia de qualquer das formas, ficam sempre nas suas cadeirinhas com toldo e com alguém que lhes traga água de coco todo o dia, de preferência. O nordeste brasileiro tem certamente praias melhores mas as pessoas gostam de vir para Jeri pelo seu ambiente e vida noturna, já que tem muita festa e animação.

Em todo o caso, uma das melhores coisas de termos vindo a Jericoacoara foi que, quando de lá saímos, na cidade mais próxima, comemos as melhores castanhas de caju alguma vez comidas. Crocantes, assadas em casa, nunca mais encontrámos nenhumas assim, normalmente as “artesanais” amolecem rápido apesar de serem muito melhores do que as industriais. O estado do Maranhão é um dos principais produtores de caju do Brasil e, por conseguinte, da castanha. Foi preciso chegar ao Brasil para perceber de onde vêm as castanhas de caju realmente, já tinha visto alguns cajueiros em Moçambique mas não me lembro de vê-los com fruto. Aqui também se come o caju, que pode ser amarelo ou cor-de-laranja apesar de se utilizar sobretudo para fazer sumo, que é óptimo.

Fizemos boa parte do caminho rumo a Barreirinhas, o nosso destino para uma visita aos Lençóis Maranhenses, com o Edmo, um camionista, pai de 26 filhos (qual Bin Laden qual quê, quem quiser homem fértil que venha ao Brasil, arranja-se bom e barato), casado por 12 vezes (apesar de só uma no papel). A diferença de idades do seu exército de crias era só de 14 anos, a mais nova tinha 18 e o mais velho 32, o que dá uma média anual de filhos de 1.9/ano durante o período fértil, sendo que os dois mais próximos tinham uma diferença de idade de apenas dois meses (de mães distintas, naturalmente).

– “Felizmente, não tive nenhum par de gémeos” – completou. Imagino que o record do guiness estaria seriamente ameaçado, caso alguns dos seus filhos tivessem vindo a duplicar. O Zezé Camarinha parece-me agora um charlatão ao lado deste senhor!

 Neste momento, o Edmo estava contente com a actual mulher pois, segundo o próprio, ela era sua mulher, companheira, rapariga e piriguete (nova expressão que aprendemos no sertanejo interventivo, uma piriguete é nada mais nada menos do que uma aspirante a rapariga, que por sua vez é uma mulher que “pega” homens casados).

Enquanto esperámos pela boleia seguinte, aproveitando a sombra de uma casa, uma senhora muito simpática, dona da casa, trouxe-nos duas cadeiras, água gelada, bananas e só não veio o almoço porque insistimos que não era preciso mais. Desta forma, não custou muito passar lá duas horas à espera da próxima alma caridosa, visto que só nos tínhamos que levantar a cada dois ou três minutos para solicitar boleia aos carros que passavam. E lá conseguimos chegar a Tutóia, onde dormimos, e na manhã seguinte chegámos a Barreirinhas.

Ficámos alojados em casa do Izaias que é professor primário e dá aulas de alfabetização a adultos. Para além disso, tem uma verdadeira escola de informática em sua casa, então vêm miúdos algumas manhãs para ter aula com ele. No segundo dia, fomos tomar banhos de rio, perto de casa e o Izaias estava a tentar trocar as aulas que tinha nessa tarde, como professor primário, com outra professora, para ir tratar de uns assuntos ao banco. Perguntei-lhe se aqui era normal os alunos terem mais do que um professor primário, até porque ele não lhes dava aulas todos os dias (uns dias tinha as crianças, de tarde, e noutros os adultos, de noite), ao que ele responde:

– “Não é muito normal. Na prefeitura, eles não sabem que fazemos isto. Mas a directora da escola sabe que fazemos isto e não se importa. E a professora que vai trocar comigo hoje também não se importa. Trocamos sempre.” – diz-me ele.

– “Ah, ok, que bom.” – respondo.

– “A directora da escola neste caso é a minha mãe!” – acrescenta ele.

-“Ah, assim fica mais fácil, de facto.” – concluo.

– “E…, neste caso, a outra professora é a minha irmã!” – acrescenta ele. Como não gostar deste país?

Os Lençóis Maranhenses foram sem dúvida um dos lugares mais bonitos da viagem, e que já visitámos, em geral. É um deserto de areia, cheio de dunas e com lagoas de água doce no meio. Se fizermos uma contemplação a 360º, vemos também os imensos arbustos, do lado contrário às dunas, pois local fica no meio da floresta. O contraste é impressionante! As lagoas secam durante a época seca (que já teve início, mas, por este ano ter sido muito chuvoso, tivemos sorte) e, segundo nos contaram, os seus peixes sobrevivem durante a metade do ano em que ficam sem água – um fenómeno algo bizarro.

Na visita aos Lençóis conheci também um miúdo incrível, mulatinho, de cabelos compridos e um ar meio índio. Perguntou-me de onde eu era e quando lhe respondi “Portugal” disse-me “ah, lá longe”. Vi logo que não era uma criança muito comum porque não há assim tanta gente que saiba onde fica Portugal por aqui, muito menos os miúdos. E depois completou com:

– “Eu ganhei uma passagem para ir a Portugal mas não quero ir já, vou esperar ficar mais velho porque me falaram que lá o vinho é muito bom e barato e eu ainda não tenho idade para beber”!

Perguntei-lhe então quantos anos tinha, ao que me responde prontamente:

– “Oito anos, oito meses e vinte e cinco dias.”

(Depois de uma longa pausa para cálculos mentais) Disse-lhe que só faltariam nove anos, três meses e cinco dias então mas que era uma boa decisão. O miúdo conhecia quase todos os estados do Brasil mas, na verdade, não vivia aqui pois andava a viajar pelo mundo com a mãe. Mais tarde, vimo-lo de novo a descer a duna enrolado na areia até à lagoa, uma brincadeira que também eu tentei fazer meia hora antes mas da qual desisti após chegar lá a cima e me deparar com a altura e inclinação da duna.

One thought on “Jericoacoara e os Lençóis Maranhenses

Leave a comment