Belém

A viagem para Belém foi bastante mais fácil que a última até aos Lençóis, apesar da distância ser semelhante (900km). Isto porque conseguimos fazê-lo com apenas três boleias no primeiro dia e duas no segundo.

Começamos por ser levados por um militar em serviço, que fazia a segurança privada de dois deputados estaduais do Maranhão e ia ao seu encontro a uma cidadezinha que ficava a três horas de Barreirinhas, de onde partimos, só para os levar a dar voltas dentro da tal cidade durante um dia –  os chiques iam e voltavam de jato privado (uma viagem de três horas de carro para cada lado, entenda-se). As estradas do Maranhão são provavelmente as piores do país (este é também o estado mais pobre do Brasil), há várias partes do percurso que não se podem fazer a mais de 20km por hora e como os políticos não estão para buracos, isso é para o povão, vão no seu jatinho. Ele contou-nos que os deputados estaduais ganhavam 30.000 reais por mês (6.000€!), o que é quase o dobro do que os deputados ganham em Portugal, mas mesmo assim não me parece suficiente para ter um avião privado. De onde virá o dinheiro (?), ninguém imagina naturalmente! Ficámos também a saber que em São Luiz, a sua cidade, há um orfanato chamado “Filhos do Carnaval”, onde mães adolescentes que engravidaram durante o carnaval – época de grandes loucuras e promiscuidades – deixam os seus bebés.

Fomos posteriormente levados pelo António, um agrónomo que trabalhava com sistemas agro-florestais pela região. Fizemos quase 200km com ele e acabámos por dormir na sua base – uma casa que alugava com três colegas para o projecto, visto estarem todos deslocados. Acampamos dentro de casa para nos protegermos dos mosquitos! Por coincidência, eram também as comemorações do aniversário da cidade e fomos todos ao bailarico de Sertanejo, menos o António que ficou agarradinho à sua cachaça (cachaça que foi também o seu café da manhã), em casa. Gostei particularmente de, em quase todos os intervalos entre canções, os cantores agradecerem ao prefeito da cidade e ao vereador da cultura. No final da noite, a graxa deve ter sido de uns trezentos agradecimentos para aí.

No dia seguinte, começámos por ser levados gratuitamente por uma van (autocarro local) e depois pelo Stalone, não o Rocky Balboa mas um camionista de Maceió que curtia muito festa e vinha de uma noitada. Deixou-nos a 20km de Belém, onde tivemos direito a serviço premium pois os nossos anfitriões do couchsurfing, a Rebecca e o Michel, vieram buscar-nos, não sem antes enviarem o seu amigo padre, Leo, para vir ter connosco e não ficarmos sozinhos, pois ainda iriam demorar uma hora a chegar.

A recepção em Belém não poderia ter sido mais calorosa. A Rebecca e o Michel andaram a viajar à volta do mundo no ano passado, onde também usaram muito o couchsurfing (e levavam inclusive a mãe do Michel, que os foi visitar algumas vezes, a fazer couchsurfing com eles), e por isso sabem exactamente do que precisa o viajante. Tivemos direito a quarto privado, toalha, lençóis e tudo, um luxo! Para além disso, têm muito tempo livre, porque ela está a fazer um doutoramento e ele tem a sua própria empresa, de modo que nos levam de carro a passear a todo o lado.

São muito animados, o Michel tem definitivamente pilhas duracel, sempre carregadas mas, na verdade, toda a sua família é muito animada e moram todos lado a lado. Têm quatro casas na mesma rua onde vivem eles os dois, a mãe, o irmão e a cunhada, a avó, a tia-avó, um primo, um filho ilegítimo do avô do Michel (concebido quando o avô tinha 74 anos!) que é bastante mais novo que o próprio Michel (basicamente o seu tio tem menos 16 anos que ele!) e que foi entretanto acolhido pela família. E ainda a empregada, que parecia saída de um filme da Disney, e a sua filha, Eloisa, que dá nome ao wifi da casa (“vaiestudaróeloisa”).

Os almoços são quase sempre em casa da avó, há umas quinze a vinte pessoas a almoçarem por lá diariamente entre família e eventuais amigos que vão aparecendo. Não há horários nem avisos, cada um vai aparecendo e almoçando à sua hora (entre as 11h e as 15h), lava o seu prato e vai embora, enquanto a vovó vai repetindo “coma mais, minha filha, coma mais” para toda a gente, ao passo que o Michel vai gritando pela cozinha a “proibir” a família de levar tupperwares com maniçoba para as suas casas.

No primeiro dia, fomos logo informados de que no fim-de-semana seguinte iria ser a maior festa do ano da cidade, o Círio, que é também a maior procissão católica to Brasil (reúne dois milhões de pessoas) e uma das maiores do mundo. Posto isto, vínhamos para passar três dias e acabámos por ficar dez.

Tivemos também direito a assistir a uma cena de violência doméstica dos vizinhos da frente logo no primeiro dia. Basicamente, o marido da vizinha descobriu que era corno e encheu-lhe a cara com o que tinha à mão, inclusive um pau de vassoura, com a rua toda em alarido mas ir lá está quieto, só uma senhora velhinha, no final, foi lá tentar tirá-lo dali. Ele saiu furioso, deu duas valentes pancadas com o seu carro nas viaturas que estavam estacionadas à frente e atrás, e lá se foi embora.

Anteriormente, a nossa maior razão para querer passar uns dias em Belém era pela comida pois já nos tinham avisado que a comida aqui era muito boa e com muitas coisas típicas (de influência indígena) que não se vêem noutros lugares. E, de facto, a comida não desiludiu. Algumas das iguarias locais são o açaí, de consumo diário – o verdadeiro açaí é daqui e come-se quase líquido, como uma sopa, 100% polpa sem açucar ou adoçantes (há quem ponha açucar mas o tradicional é sem), misturado com farinha de tapioca. Come-se junto com o prato principal e não como sorvete com granolas e banana com se vê noutros lugares. Ficámos fãs, não tem nada a ver com o açaí que se come na europa ou mesmo noutros estados do Brasil. Há também vários peixes de rio, como o filhote (bastante bons), caranguejo de rio (este não adorámos, o nosso é melhor), maniçoba (parece um guisado do médio oriente, é feito com uma planta que é cozinhada por sete dias), tacacá (uma sopa de tucupi – liquido de mandioca – , camarão e jambu, uma erva que deixa a boca dormente, parece que levamos uma anestesia local), pato do tucupi (também com tucupi e jambu), castanhas do pará (internacionalmente conhecidas como castanhas do Brasil), que provámos cruas e sabem a côcô (são muito melhores que as assadas mas mais caras), para além da imensidão de frutas que nunca tínhamos ouvido falar, como cupuaçu, graviola ou acerola.

Durante a semana, fizemos várias actividades, fomos ao sítio da família do Michel, onde tomámos banho de garapé (uma parte do rio, que percorre várias casas sendo que cada uma tem o seu acesso privado), visitámos a cidade, que não tem muito para ver além de um mercado, um forte e duas igrejas, fomos dançar brega e carimbó, os estilos musicais locais, andámos de lancha com o irmão do Michel, fomos a uma praia no meio do rio, entre sessões de focaccia e aulas de pastéis de nata, as nossas novas profissões. Entretanto, a Bori, uma coreana que conhecemos nos Lençóis Maranhenses e que vai fazer a nossa viagem de barco de Belém até Iquitos, juntou-se a nós a meio da semana, de modo que somos também intérpretes, já que ela fala apenas duas palavras de Português, “muito bom”.

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