Festejámos um ano do Leslie sem tempestades mas entre muita, muita gente, fazendo a boa acção do mês. Fomos dar água aos peregrinos, durante o Círio.
As comemorações começaram na sexta-feira à noite, na praça principal, com o “auto do círio”, uma espécie de festa de carnaval totalmente profana que, não sei bem como, conseguiram que fizesse parte do Círio nos últimos 25 anos. Eu a achar que ia para uma procissão e deparo-me com um monte de pessoas mascaradas, com muito pouca roupa, a desfilarem pela cidade.

Tudo se inicia com um discurso de representantes das várias religiões – católicos, evangélicos, mórmons, até hare krishnas havia. O tema deste ano foi a Amazónia pelo que todos os discursos terminavam com um “fora Bolsonaro” e a plateia em êxtase, mas isto já vai sendo regra em todos os falatórios a que assistimos por aqui em tudo o que é espectáculo. Pela quantidade de aplausos da plateia, estimo que os eleitores do Bolsonaro sejam seres mais caseiros que não gostam de se misturar com o povo, o que faz sentido porque a probabilidade de um preto ou de um gay nos tocar no braço e passar a doença é muito alta, eles estão por todo o lado.
Depois dos discursos, começa a rolar o samba, ao som do qual os profanos vão desfilando com as suas máscaras de todas as cores e estilos. Mais à frente, está um palco montado e há um espectáculo de palhaços mudos, fora Bolsonaro de novo, e continua o desfile em direcção ao último palco. Nunca estive no Brasil durante o Carnaval mas parece-me que será precisamente isto, com a pequena diferença de o galinheiro à volta ser maior do que aqui, pelo que está visto o carnaval, é uma experiência muito gira mas, mais gente, não obrigada.
No dia seguinte, de manhã, há a procissão náutica, um monte de barcos enfeitados que fazem todos juntos um trecho do rio. Assistimos de casa da tia do Michel que tem vista privilegiada – para o rio. Quem tem barco pode acompanhá-los da água mas o rio está tão lotado que acabam por haver imensos acidentes de barcos. E, durante a tarde, junta-se um grupo de motards para fazerem a procissão de mota.

Na noite de Sábado, já estamos mais perto daquilo que será o Círio, a santa (Nossa Senhora da Nazaré) é levada desde a Basílica da cidade até à Sé, sendo que, no dia seguinte, o dia do Círio propriamente dito, faz o percurso inverso, regressando à Basílica, onde dorme o resto do ano – são 12km de distância de um lugar ao outro. Deste modo, a procissão de Sábado à noite é bastante parecida com a de Domingo de manhã, a principal diferença são as luzes no Sábado a contrastar com a maior concentração de pessoas e o calor acrescido que se fazem sentir no Domingo, por ser de dia – a temperatura pode chegar facilmente aos 40ºC, com altos níveis de humidade.
O dia do Círio é, de facto, uma loucura. São dois milhões de pessoas debaixo de um sol que nos queima os ossos, tudo aos empurrões para ver a santa passar, que por sua vez é “protegida” por uma corda em forma de U, levada pelos peregrinos. A concorrência para puxar a corda é, naturalmente, muita, todos querem um bocadinho da santa, o que significa que há pouco espaço para mais do que um indicador e um mindinho esmagados na corda. Durante 12 km. E eles lá vão puxando a corda, uns descalços (para não perderem os sapatos) e outros calçados, uns por cima dos outros. A temperatura aqui ronda os 40ºC e muitos com o calor humano. Tudo para segurarem uma corda.
Para além da corda, que vai no meio, há ainda outras duas filas de pessoas nas laterais, que já não conseguiram lugar premium mas também acompanham toda a procissão. Muitos dos caminhantes levam objectos na cabeça, desde casas de esferovite, a pedirem ou agradecerem por uma casa – uma levava mesmo um tijolo verdadeiro -, livros, para que passam no vestibular (o exame de acesso à universidade) e alguns levavam até pés de plástico (recuperação de um pé partido?!). E os espectadores vão chorando e fazendo as suas orações enquanto a santa passa, ao som de uma música de fundo em que tudo rima com açaí.
Pessoas vão passando mal, desmaiando, vêem-se macas passar com muita frequência, uma é levada em ombros enquanto grita gemendo “pé quebrado, pé quebrado” para que a deixem passar, isto porque a movimentação nesta altura já é muito complicada, não dá para andar nem um passo para o lado, estamos todos encostadinhos ao suor do vizinho, felizmente os paraenses tomam três a quatro banhos por dia e nunca cheiram mal, isto noutro país seria insustentável.
E pelo meio há os vendedores ambulantes que, magicamente, encontram um espaço entre os espectadores e a primeira fileira de peregrinos e vão vendendo os seus pastéis, pulseiras do Círio, amuletos, etc. É mais ou menos como encontrar um vendedor de cerveja (aqueles que vão com as mochilas) na fila da frente de um concerto do Tony Carreira – nunca vi tal feito. Aqui, eles encontram sempre um buraquinho onde se enfiar.
Há ainda os “joalheiros”, peregrinos que decidiram fazer a procissão de joelhos e que são acompanhados por três ou quatro apoiantes que lhes vão forrando a estrada com bocados de cartão, para que não se esfolem todos no alcatrão.
No Domingo de manhã, fomos acompanhar os nossos anfitriões que iam dar águas aos peregrinos. Alvorada às 5h da manhã para abençoarmos as nossas bodas de papel. Pensámos inocentemente que íamos dar garrafinhas de forma ordeira às pessoas que passavam pela nossa barraquinha mas o panorama real não dá aso a essa hipótese, exigindo um esforço acrescido. A maior parte da água é atirada para cima das pessoas, para que se refresquem, dada a temperatura extrema que se faz sentir. Tivemos que enviar os homens para a zona de combate enquanto as mulheres abriam a passavam as paletes de água. No início, ainda me aventurei a ir à frente de batalha mas logo comecei a ser arrastada com a multidão e vi-me aflita para sair dali (não sei como, com este caparro!), de modo que quando consegui regressar à base mantive-me no meu penico. O Manel ainda teve que socorrer uma miúda que desmaiou dentro do campo de batalha.

Grades, protecções laterais, saídas de emergência, nem vê-los. São dois milhões de pessoas, todas amontoadas. Dizem que nunca morreu ninguém, o que me parece inacreditável. Quando as pessoas se preparam para sair da zona da confusão, depois da santa passar, levamos com mais encontrões do que em muitas filas da frente de festivais de música. As saídas são inundadas por barraquinhas de vendedores ambulantes que chegam também a estacionar lá os seus carros com a mercadoria e é um salve-se quem puder. Enquanto eu lutava pela sobrevivência, tinha ao meu lado uma velhinha de oitenta anos e duas crianças de sete ou oito anos a serem tão ou mais empurrados quanto eu.
E, no final, uma autêntica lixeira instalada, kg e kg de plástico por todo o lado, num evento que começou com os apelos pela protecção do meio ambiente e da Amazónia.






