Cruzando o Amazonas

No total, vamos cruzar o Amazonas de barco durante cerca de vinte dias até chegarmos a Yurimaguas, já no Perú, sendo que planeamos fazer paragens em Santarém (que nos aconselharam muito), Manaus, Tabatinga (tripla fronteira entre Brasil, Colômbia e Perú) onde aproveitaremos para endireitar as costas após vários dias de suite-presidencial em forma de cama de rede, no barco. Depois, outra paragem em Iquitos e uma última em Lagunas. De Belém a Santarém são só três dias, próprio para iniciantes, portanto.

O Manel caiu da rede logo da primeira noite, coitado. Felizmente as nossas malas estavam por baixo e amorteceram a queda, que acabou por ser bastante ligeira. Em todo o caso, fez questão de me acordar e de andar uma hora mal disposto a ripostar com a disposição das redes.

Eu nem dormi mal, achei não ia pregar o olho mas descobri uma óptima técnica para dormir direita, depois de ver uma vizinha utilizá-la: dormir na diagonal. Fica-se quase direita, até parece que estamos numa cama.

Os vizinhos são relativamente tranquilos, há um bebé mas só chorou de manhã. Uns trouxeram o seu mixer e andam aí a bater açaí! O mesmo não se pode dizer do segundo barco que apanhámos de Santarém até Manaus, onde tínhamos como vizinhos de rede uma banda de forró-funk que ensaiava a todas as horas do dia e um senhor que nos acordou de rompante às 2h da manhã com um vídeo aos altos berros sobre os benefícios da absorção da Vidamina D. Auriculares é um adereço inexistente neste país.

As nossas actividades no barco resumem-se a ler, ouvir podcasts e contemplar a natureza, sendo que o Manel e a Bori fazem isto quando não estão a dormir (o que acontece durante 2/3 do dia). Já os brasileiros lêem a Bíblia, jogam dominó e bebem cerveja no bar, ao som da nossa querida Marília (já estávamos com saudades dela!). Temos também os DJ’s do costume com a sua própria coluna a animar a malta. Afinal, em casa de brasileiro, silêncio é coisa de estrangeiro.

Nas horas vagas, e quando estão acordados, o Manel dá aulas de espanhol à Bori, a sul-coreana que se juntou a nós para a viagem de barco. A Bori está a viajar há quatro anos sem nunca ter ido a casa porque acha que quando for já não sai de lá. Tem um inglês bastante arcaico para quem anda a viajar há tanto tempo mas lá nos vamos entendendo.

Passámos por zonas com casinhas no meio do nada, micro aldeias com cinco ou seis casa, mas até aí há igrejas (católicas e evangélicas). As pessoas que estão no vão atirando sacos de plástico com roupa e comida para a água para os locais – que andam por aqui nos seus barquinhos a remos – apanhem.

Quando o barco para, entram uns quinze ou vinte vendedores ambulantes que trazem de tudo, açaí, gelados, queijo, pão. Esta é também a altura em que temos que estar de olho nas nossas bagagens pois fomos avisados que há muito ladrão que aproveita para entrar. No último dia, levaram um senhor algemado do barco, nós nem reparámos mas contou-nos um amigo chileno que aqui conhecemos. Outras vezes, os vendedores entram mesmo com o barco em andamento, o que faz com que tenhamos que vir rapidamente para as nossas posições. Eles vêm todos junto num barquinho de madeira, atam a sua corda ao nosso barco e saltam todos cá para dentro. Em todo o caso, o mais chato é quando o barco faz paragens a meio da noite, o que acontece muitas vezes, pois temos que estar nas nossas redes, de olho aberto, a ver se não vem nenhum ladrão.

Nos dois primeiros barcos conseguimos finalmente dar uso à panela que comprámos em Curitiba. Já estávamos quase a deitá-la fora, pois nunca a usamos e ocupa espaço na mochila, mas foi um utensilio essencial. Apesar de haver um letreiro a dizer “proibido cozinhar”, há um fogareiro com dois bicos no barco, pelo que temos feito a nossa marmita, poupando os 15 reais que pedem por refeição. Ainda ninguém nos disse nada em contrário e a verdade é que também há letreiros a dizer para as pessoas lavarem as mãos depois de irem à casa de banho e dou um aleluia de cada vez que vejo alguém cumpri-lo! Acho que é só para que não se ponha tudo a cozinhar, até porque só há dois bicos, mas felizmente somos os únicos fonas.

Já no barco de Manaus-Tabatinga, a mais longa viagem, de sete dias, não nos foi possível continuar com os nossos cozinhados por não haver fogão público. Em todo o caso, aqui o preço das refeições estava incluído no bilhete, de modo que só iriamos cozinhar algumas vezes para alterar um pouco o menu, que é basicamente o seguinte:

Dia 1

  • Almoço: arroz, esparguete, feijão, carne vaca
  • Jantar: sopa de massa com carne

Dia 2

  • Almoço: arroz, esparguete, feijão, peixe
  • Jantar: sopa de massa com frango

Dias 3, 4, 5, 6 7 : repetição dos menus do dia 1 e 2 alternadamente.

Felizmente é self-service, por isso podemos ter a nossa própria rotatividade alimentar. Eu adoptei a seguinte técnica:

Almoço: arroz com feijão ( + tomate/pepino/cenoura trazidos de casa em caso de necessidade).

Jantar: esparguete com feijão (fiquei surpreendida pela positiva com esta combinação) (+ tomate/pepino/cenoura trazidos de casa em caso de necessidade).

Horário de refeição: pequeno almoço: 6h30; almoço: 10h30; jantar: 16h30, sendo que a pontualidade peca por antecipação, às vezes 20 a 30min antes do horário definido já está a tocar o sino. É caso para dizer que temos necessidade de fazer uma pequena ceia a altas horas – 20h – para não passarmos fome durante a noite.

Destaque para um camarada que no sétimo dia se virou para o Manel com a seguinte constatação:

  • “Não percebo, estão sempre aimplicar com o presidente mas não vejo nada aqui a arder.” – , talvez convencido de que tinha no seu raio de visão toda a floresta amazónica. Só por causa das coisas, nessa mesma tarde lá avistámos um incêncio, pode ser que ele agora já esteja um pouco mais esclarecido.

Chegados ao Perú, fomos presenteados com um novo menu: arroz com lentilhas (com uma micro perna de frango para os carnivoros). Aqui num registo almoço + jantar x 3 dias, pelo que já não deu para grandes criatividades gastronómicas. Pode-se dizer que o Brasil deixou muitas saudades, para além da comida mais variada, também os barcos nesse país eram um serviço premium comparados com os Peruanos, e as pessoas mais bem cheirosas – no Perú já não há cá três banhos diários, em todo o caso, água há muita, acordei toda molhadinha das pingas que caíram por cima de mim durante a noite.

Terminámos a viagem em grande com um embate quase frontal contra uma árvore, a meio da noite (o leito rio deve ter só uns 400m, é perceptível). No dia seguinte, depois de encontrarmos algumas garrafas de cerveja vazias ao lado da cabine do capitão, estimámos a razão do desnorte.

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