Santarém, o Paraíso e a profissionalização como pasteleiros

Era suposto serem três dias de viagem mas o capitão do barco decidiu dar uma de Schumacher, ou de Ayrton Senna para estar em maior conformidade com o local, e chegou em dois dias e meio, atracando no porto às 2h da manhã o que foi especialmente desagradável pois, para além de interromper o nosso sono, não tínhamos para onde ir, pelo que ficámos sentados no terminal a fazer horas até as 6h da manhã, altura em que nos deslocámos à padaria da família do Gerardo ou o padre, como era mais conhecido (pelo seu cabelo), o primo do Michel que conhecemos em Belém.  

O Gerardo estava em Belém a tirar um mestrado mas toda a sua família vivia em Santarém, pelo que nos convidou a ficar em sua casa (há rumores de que o facto de sabermos fazer pastéis de nata e a família dele ter uma padaria em Santarém tenha jogado o nosso favor, em todo o caso, benditos pastéis de nata). Tínhamos à nossa espera uma casa só para os três (nós os dois e a Bori, a coreana) e também uma família calorosa na casa do lado e desejosa de nos ter lá para o almoço, lanchinho, jantar e tudo mais.

Tal como em Belém, também esta parte da família vive toda junta, a mãe do Gerardo, os seus outros dois filhos, Marcos e Geraldo (este conjunto de nomes entre irmãos – Genardo e Geraldo  – lembrou-me os míticos gémeos siameses Orlando e Osvaldo, os meus dedos dos pés), as suas respectivas, uma filha de uma das respectivas, a empregada (que lá vive desde os seus treze anos), e ainda uma neta, ao que parece filha de uma filha não de sangue mas de coração (filha ilegítima do marido? Uma incógnita ainda mas o mais provável e comum por estas bandas) que entretanto se casou e foi para longe, sendo que o “longe” fica algures em Santarém, cidade com 300.000 habitantes, portanto não há-se ser muito distante. E há ainda a mulher do Genardo que se mudou para casa dos seus pais desde que o Genardo foi para Belém mas anda sempre por aí.

Pode-se dizer que somos uma espécie de atracção da cidade. Santarém é uma cidade bastante isolada, por só se chegar de barco ou de avião, e os turistas que vêm aqui ficam a 30km de distância, em Alter do Chão, praia de rio e a maior atracção da cidade. Estão sempre a vir apresentar-nos novas pessoas para que contemos a nossa história e viagem (a coreana vende particularmente bem por ser uma asiática, mulher, a viajar sozinha há quatro anos, então fazemos de intérpretes entre ela e o povo).

Alter do Chão é uma vila com uma praia de rio que mais parece de mar, estilo paradisíaco, não sabia que havia praias de rio desta envergadura, bonita bonita. A praia principal é uma ilha no meio do rio e para lá chegarmos atravessámos o rio a pé, a água vem até ao peito mas nesta fase do ano dá para passar. Senão também se pode ir de barquinho de madeira. A água foi provavelmente a mais quente até então, devia estar quase a 30ºC. Conseguimos apanhar um escaldão mesmo passando todo o dia debaixo da sombra de uma árvore e, no final do dia, fizemos uma caminhada até ao miradouro da ilha, que tem uma vista sensacional.

No último dia em Santarém fomos ao Paraíso, literalmente, já que é o nome do lugar onde fica a casa de praia da família, a 20km de Santarém. Segundo o pai do Gerardo, que vive lá permanentemente, basta uns passinhos em diante e estamos no céu. O lugar faz, de facto, jus ao nome assim como a casa deles, em cima da praia (também de rio sendo que aqui não há mar), uma praia praticamente privada já que só há acesso para as pessoas que lá têm casa. O rio é tão extenso que parece uma praia de mar e, tal como em Alter do Chão, também a areia é igual à da praia.

Nesta casa, há também várias árvores de fruta, como manga, caju, cabuticara, mamão, piranga, limão, acerola, entre outras. Até uma cameleira (árvore que dá canela) têm, pelo que eu trouxe imensas folhas de canela para fazer já, nem sabia que a canela tinha folhas!

O Geraldo levou o seu sistema de som, digno de DJ profissional, e esteve a tarde toda a passar música para nós, desde tecno-brega (sonoridade local), a carimbó, à nossa querida Marília, etc. Isto depois de almoçarmos um maravilhoso tambaquim, peixe de rio tão bom como muitos de mar. Na verdade, o norte do Brasil trouxe-nos esta incrível descoberta: peixe de rio pode ser muito bom, às vezes melhor que o de mar. Quando fomos ao mercado central, em Santarém, vimos mais de trinta espécies de peixe, nem sabia que existia tanta espécie de peixe de rio.

Por falar em peixe, o Manel tentou ir à pesca. Passou uma hora, passaram duas horas, passaram três horas. Não trouxe nada. Nem ele nem o Marcos, o seu comparsa da pesca. O rio não estava bom para pesca. Ele reclamou que o problema foi a falta de isco (estavam a pescar sem isco, uma técnica local).

Tivemos também oportunidade de fazer os nossos deliciosos pastéis de nata, desta vez num ambiente profissional, na padaria da família, onde o Manel esteve toda a manhã a ensinar a sua técnica ao confeiteiro para que eles possam posteriormente vendê-los. Parece que o negócio tem andando a render.

2 thoughts on “Santarém, o Paraíso e a profissionalização como pasteleiros

  1. Boa, Teresa. Passei aí com a moto mas em sentido contrário. Desci o rio. Não sei é fazer pasteis de nata pelo que não arranjei quem me acolhesse. Como não estava a conseguir dormir na rede comprei aí um colchão de encher, num centro comercial, que era um luxo e inveja de companheiros de viagem. Boa viagem. Beijinhos.

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