Beber mate sem dar barraca

Algumas curiosidades sobre a Argentina.

  • Mate – aqui bebe-se muito uma coisa chamada mate, é uma erva tipo chá. A maior diferença é que não há um mate para cada um, bebem todos do mesmo copo, que tem uma palhinha de metal integrada (para filtrar as ervas). É como se fosse um cachimbo da paz quase, vai-se a casa de uma pessoa beber mate. Confesso que partilhar a palhinha com estranhos não me animava muito inicialmente, mas o mate não é nada mau, já me acostumei ao ritual. Os Argentinos passeiam-se em todo o lado com o seu mate e um termos com água quente para fazer refill do mate – nas viagens de carro, na rua, nos jardins. Um Argentino que se preze não vai a lado nenhum sem o seu mate e termos. Quando entramos em carro ou casa alheia, uma das primeiras perguntas que nos fazem é “toman mate?”, ao que respondemos prontamente que sim, não vão eles pensar que somos esquisitos.

Passados dois meses na Argentina, vários estudos de caso lidos, interrogatórios a pessoas locais, um olhar bem atento sobre a comunidade, noites sem dormir a ler livros sobre o tema, entre outros, acho que posso finalmente afirmar com alguma segurança que conheço as regras envolvidas neste ritual e que posso beber mate sem dar grande barraca. É que pedir café pingado em chávena pré-aquecida em Portugal é um pequeno preciosismo ao lado disto (não bebo café mas parece-me que o pormenor do pingado em chávena aquecida está num nível ligeiramente elevado de esquisitice). Vejamos então algumas regras do mate, a saber:

  1. a água que se põe mate tem que estar a 80ºC, não pode ferver senão mata algumas das suas propriedades. Por este motivo as chaleiras que se vendem na Argentina têm, não uma, mas duas medidas que aquecimento, a normal (100ºC) e uma especial para mate, que aquece a água a 80ºC. Isto faz com que o mate fique logo estragado em muitas casas Argentinas. Isto porque muitos deles vão comprar chaleiras ao Chile (porque tudo o que é electrodomésticos, roupas, etc. é mais barato no Chile – os Chilenos são “amigos” dos EUA e, por isso, têm muito menos impostos sobre tudo o que é importado), e as chaleiras chilenas não têm a opcção “mate” (visto não haver tanto costume de bebê-lo), o que deixa os seus hermanos furibundos;
  2. quando alguém nos passa o mate e o recebemos de livre vontade, temos que o beber até ao fim. Não se pode dar só um gole e passar à pessoa seguinte;
  3. se o mate estiver muito quente, bebe-se na mesma, mesmo que isso signifique queimarmos a língua. Não convém soprar lá para dentro para arrefecê-lo, é má educação;
  4. há só um servidor de mate. Isto é, quem prepara o mate, é a pessoa que serve todos os outros. Essa pessoa passa-nos o mate e, depois de o devolvermos, enche-o novamente com a água que está no termos e passa-o à pessoa seguinte e assim sucessivamente;
  5. Se, quando devolvemos o mate, agradecemos ao servidor de mate com um simples “gracias”, isso quer dizer que já não queremos beber na ronda seguinte portanto para quem quer continuar a usufruir o melhor é estar calado;

Enfim, há-de haver mais umas que ainda não aprendemos. Já comprámos o nosso próprio mate (ou seja, copo de mate mas quando uma pessoa se refere ao mate não pode dizer “copo de mate”, assim mostra logo que é estrangeiro), planeando evangelizar os demais povos;

  • Propina: aqui temos sempre que dar uma gorjeta ao senhor que põe as malas na bagageira do autocarro pois o motorista é demasiado preguiçoso para se dar a esse trabalho. É um género de arrumador de carros, contratado pelas próprias empresas de autocarros. Se alguém se armar em esperto e não der gorjeta, corre sempre algum risco de que lhe desapareça alguma coisa da mala, portanto o melhor é dar a devida propina.
  • Há imensos cães abandonados, que passam os dias na rua a ladrar e a correr no meio da estrada atrás dos carros – não sei como não vimos nenhum a ser atropelado ainda, eles põem-se mesmo no meio da estrada e colam-se aos pneus dos carros enquanto correm.
  • As estações de serviço integram alguns dos cafés/restaurantes mais badalados das cidades. Começámos por recorrer às bombas de gasolina para usar o wi-fi quando estamos em viagem e assim pesquisar como chegar ao nosso destino. Mais tarde percebemos que, assim como os Portugueses vão ao café do bairro para tomar uma bica a seguir ao almoço, os Argentinos vão à estação de serviço, não só para a bica mas também para almoçar – os cafés da bomba têm muito mais gente do que qualquer café, na cidade. Seria o equivalente a ir ali à Galp da A5 para um almoço de família ao Domingo, sendo que os menus são premium, cachorro quente, empanadas, etc.

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