Vínhamos por três dias e já estamos acampados em casa do Luís, em Mendonça, há uma semana. O Luís é um Mendonceiro muito boa onda e não gosta de estar sozinho em casa por isso tem sempre imensa gente. Nos primeiros dias, fomos sete, nós, a Charlotte, uma Francesa que fala espanhol (!!!) e que nos fez companhia a visitar a cidade nos primeiros dias, o Oruk ou uma coisa assim parecida, um Israelita que já tem mais amigos em Mendonça do que o própria Luís (está sempre activo no tinder) e dois Argentinos, o Franco e a Erica, que já estão cá em casa há um mês (também vinham por uns dias) e que normalmente vão trabalhar para as ruas a fazer malabares. Ontem chegou também a Jacki, uma Americana de New Orleans que fala tão bem Espanhol como os Argentinos e está sempre a rir-se com tudo o que diz. Para além disso, sabe onde é Portugal e que Lisboa fica em Portugal. Nem parece Americana. Com a Jacki aprendemos que, assim como em Portugal costumamos ter simulacros de incêndio nas escolas, nos EUA os miúdos têm simulacros de mass-shooting, desde os sete anos. Será que também os ensinam a manter a calma e sair ordeiramente pelas escadas de emergência? Ou mandam todos para trás das mesas e usá-las como escudo? Esperar que a professora tente dissuadir o terrorista? Ainda estou por descobrir os detalhes.
Cá em casa, há também o cão mais querido do mundo – o Aron. E às vezes entra a Negra, uma cadela preta da rua que entra e sai cá de casa sempre que abrimos a porta… e por cá fica. É querida mas muito pulguenta. Quando cheguei, pensei que a Negra era também da casa e fartei-me de lhe dar festinhas, já devo estar cheia de pulgas.
A casa é uma obra em curso, há três divisões acabadas, a sala/kitchenette (onde o Luís e mais um ou dois convidados dormem), o nosso quarto (ondem ficam três), a casa de banho e o corredor que separa isto tudo é a céu aberto. O lava-loiças é também lá fora, por isso, sempre que se acaba de jantar, vai-se à rua lavar a loiça. O bairro onde estamos é uma espécie de casal ventoso cá do sítio, sempre que dizemos a um local onde estamos a ficar, olham-nos com um ar muito preocupado e perguntam se ainda não fomos assaltados. Aqui, não só as portas das casas têm grades por fora, como também as mercearias estão protegidas pelas grades, de dia e de noite. Ou seja, para comprar coisas na mercearia, temos que fazer tudo por uma janelinha, como se faz nas farmácias de serviço ou bombas de gasolina, durante a noite, em Portugal, não dá para escolher as coisas, o que torna o processo de compra um pouco mais complicado pois não sabemos o nome de todos os vegetais em Castelhano-Argentino.
Ontem passeamos de carro com a professora de Português do Luís (já la vamos) pelo maior bairro privado onde já estivemos. Ao que parece, há centenas destes um pouco por todo o país. É uma espécie de Quinta da Marinha XXL mas não tão exclusivo. Parece-se mais a uma vila privada. Este, por exemplo, tinha milhares de moradores. Só nas barreiras para entrar no bairro, dava para passarem quatro ou cinco carros de cada vez (pensei que estávamos a parar nas cabines do final de uma auto-estrada e só depois me apercebi que entravamos num bairro). Lá dentro, as casas ficam todas ao lado umas das outras, como na cidade, e muitas nem parece que tenham jardim. Segundo o Luís, é dormitório de classe média-alta, os ricos vivem em sítios que não se conhecem, sem ninguém à volta. Disseram-nos também que há bairros privados tão grandes (noutra cidades) que têm até universidade e hospital lá dentro!
Uma das razões de termos prolongado a nossa estadia por estas bandas deve-se ao facto de termos sido requisitados para dar uma palestra na universidade do Luís (já vamos na segunda no espaço de um ano, a primeira foi no Irão). O Luís estuda turismo e tem aulas de Português, então o Manel lembrou-se de lhe contar que, no ano passado, tínhamos ido à classe de turismo do Ali, em Teerão, falar sobre a nossa experiência na cidade. O Luís gostou da ideia e pediu-nos para ir à sua aula. Depois dos Portugueses terem navegado o mundo no século XXI para, logo de seguida, terem caído em esquecimento absoluto e pouca gente além fronteiras conseguir associar o país a outra coisa para além de Cristiano Ronaldo, felizmente ainda há dois portugueses emigrados a disseminar a cultura do seu povo pelos vários continentes do globo. Falámos sobre Lisboa, Portugal, pastéis de nata, a nossa viagem, entre outros, em Português de Portugal slow motion, contudo fazendo uso de todos os modismos brasileiros que conhecemos para que não soasse tanto a russo – eles aprendem Português do Brasil, obviamente.
Para além de visitarmos museus e bodegas, em Mendonça fomos também cervejeiros por um dia. Uma das vantagens de se andar à boleia é que se conhece imensa gente e, como em qualquer parte do mundo, o networking abre portas. Desta vez, nem foi através nossa boleia, contudo o networking levou-nos lá. A Charlotte, uma das colegas lá de casa, apanhou boleia para Mendonça com um senhor cujo amigo era dono de uma cervejaria artesanal. E, depois de termos mostrado algum interesse no tema, lá fomos nós todos visitar um bar onde o tal amigo – Fernando – vendia a sua cerveja. No dia seguinte, fomos visitar a fábrica do Fernando e passados dois dias, já sem a Charlotte, eu e o Manel fomos “trabalhar para a fábrica” por um dia. Acho que estamos prontos para nos tornarmos cervejeiros. Fizemos uma cerveja preta – do princípio ao fim (deixámo-la a fermentar, só estará pronta daqui a uma semana) -, que não me agrada especialmente, mas tomámos nota de todos os detalhes das outras cervejas, o que dá bastante jeito. O Daniel, cervejeiro oficial de serviço, contou-nos tudo o que sabia sobre o tema e depois convidou-nos para um “assado” em sua casa, onde pudemos também brincar com a mota/barril muito estilosa que ele tinha construído para um festival de cerveja.











