Demoramos três dias a fazer os 1200km que separam Mendonça de Salta pela “Ruta 40”. De bus eram umas 16h mas a vida de boleiante, para além de financeiramente mais atractiva, tem outros benefícios.
Na Argentina, são várias as pessoas que adoptam este meio de transporte, desde mochileiros a executivos. Sim, é verdade, apesar de haver mais mochileiros a esticar o dedo, ainda no outro dia demos boleia (demos como quem diz, a pessoa que nos estava a dar boleia a nós, parou mais à frente para dar boleia a) um senhor que se apresentava de fato, gravata e pastinha executiva (apesar de ter um casaco mais desportivo por cima da fatiota, não fossem os carros não parar ao vê-lo tão elegante) e cujo destino era o escritório. E não foi a primeira vez que levámos alguém ao emprego, várias pessoas pedem boleia diariamente para irem trabalhar.
Enfim, nesta viagem fomos levados por umas sete ou oito almas caridosas.
Primeiro, Alexandro, um camionista Chileno que também já havia sido pescador. Foi a nossa primeira travessia de camião por estas bandas – isto porque, os camionistas Argentinos não gostam muito de dar boleias pois podem apanhar multas, contaram-nos. Contudo, o Alexandro tinha já profissionalizado o costume de dar boleias a mochileiros. Mantinha contacto no whatsapp com os boleiantes a quem já tinha levado, que lhe iam dizendo onde estavam, e quando sabia que ia passar novamente por eles (percorria quase toda a Argentina, Chile e Bolívia), combinava levá-los para o destino seguinte. Isto depois de até já ter sido roubado por um mochileiro Uruguaiano (enquanto dormia), a quem tinha inclusive oferecido uns ténis novos (porque os dele estavam todos rotos) e pago um jantar. Uma boa alma.

Conseguimos duas outras almas caridosas que nos deram abrigo durante a noite, em San Juan. A Camila e o Mariano (e a sua bebé de oito meses, Lola) são de Buenos Aires e andam a fazer a nossa viagem – da Argentina ao Alasca – desde há três anos! Ainda só chegaram ao Equador. Viajam ao ritmo Argentino, que é um pouco mais desacelerado que o europeu. Mas, na verdade, trabalham enquanto viajam (a fazer a comunicação de hotéis, etc.) e por isso têm conseguido fazê-lo por tanto tempo. Até já ficaram a gerir um hotel na Bolívia por cinco meses! Voltam à Argentina um mês por ano para “férias da viagem” e desta vez já estavam há alguns meses porque voltaram para ter o bebé. Agora iam recomeçar, talvez ainda os apanhemos na Colômbia. Eram muito boa onde e deram-nos umas boas dicas para trabalhar durante viagem, que vamos tentar implementar no Brasil – isto para além da minha ideia de vender pastéis de nata na rua, que seguramente vai correr bem.

Depois, levaram-nos o Ricardo e os seus dois amigos, que vinham de uma palestra de psiquiatria. O Ricardo era psiquiatra e trabalhava para a polícia como mediador – mediava resgates com assaltantes e raptores mas o que mais fazia, na verdade, era tentar convencer pessoas que se tentavam suicidar a desistirem. Em quatro anos, ainda só tinha tido um caso de insucesso, nada mau. O Ricardo era também um grande adepto de hóquei em patins (deporto – rei em San Juan) e por isso, um grande fã de Portugal, já que temos uma das melhores selecções do mundo deste desporto. Digamos que o Ricardo sabia bastante melhor do que qualquer um de nós todos os feitos da nossa selecção neste campeonato. Sabia, inclusive, quase todos os nomes dos jogadores de hóquei do Sporting, Benfica e Porto!
Pelo caminho apanhámos também um casal de Buenos Aires, nos seus 60 anos, que andavam a fazer turismo. Foi óptimo porque pudemos parar em vários sítios com eles. Uma curiosidade interessante sobre este casal é que tinham sido namorados quando eram novos, depois cada um seguiu o seu caminho, casaram com outras pessoas, tiveram filhos, divorciaram-se e tinham-se reencontrado há uns seis anos, via Facebook – muito modernos! Moravam em casas separadas e fartavam-se de viajar.
Mais tarde, levou-nos uma família que, apesar de ter já o carro cheio com cinco pessoas, ainda arranjou espaço para nós. O carro não era propriamente grande mas com jeitinho foi a filha para o banco da frente com a mãe, e nós os dois ficámos com a avózinha e o outro filho no banco de trás.
Contudo, uma das melhores boleias foi, sem dúvida, a de Don Corleone e seu lacaio. Valeu a pena a espera de quase duas horas na estrada a insultar as pessoas que não paravam. Enquanto chamava nomes a mais um carro que nos ignorava, eis que encosta uma viatura BMW topo de gama mesmo em cima de mim, provavelmente rendidos a esta beleza latina, visto que três metros antes não mostravam sinais de querer parar. Sai então do carro um senhor que se apresenta de imediato como “Lazaro ….”, o “superintendente de Chilecito”, isto é, o presidente da câmara cá do sítio. Ora essa, andar à boleia com tão ilustre figura não me parece nada mal. Ao seu lado ia um jovenzito de cor escura, muito musculado e tatuado, que o tratava por “Doctore” e parecia ser seu segurança privado ou motorista. O Doctore parecia mesmo saído de um filme da máfia italiana. Apresentava-se com um estilo casual chic, blazer azul com botões dourados a condizer com as calças beges, cabelo penteado para trás com gel, barriga ligeira habitual de um pai de família com posses para carne de alta categoria e relógio de ouro de griffe a condizer. O Marlon Brando haveria de ter ficado com inveja. Contou-nos que o problema do país era terem corrido com os peronistas já que estes tinham há muito encontrado a solução ideal para o país, enquanto se queixava que o actual presidente cortava tudo aos pobres (entretanto a Kirchner, última presidente peronista, está neste momento a ser acusada de várias trafulhices, biliões de dólares em bancos americanos, o normal…). Doctore, no poder há 35 anos, defendia os pobres com unhas e dentes. Podia bem ser um Isaltino Morais cá do sítio – apesar de bastante mais bem parecido. Don Corleone deixou-nos num cruzamento no meio do nada, pois ia seguir por outra estrada. Estava quase a anoitecer e, quando já nos mentalizávamos que talvez tivéssemos que dormir ao relento, visto que nem tenda temos (somos um pouco amadores nisto), fomos salvos por Don Nestor e seu amigo Hilário.
Ainda nos faltavam uns 500 km para chegar a Salta e saiu-nos a sorte grande. Nestor e Hilário, dois reformados muito amáveis que andavam também a fazer turismo, estavam a regressar da sua viagem ao Sul e iam direitos a Salta, onde moravam. Ainda parámos a meio da viagem para dormir numa aldeia e, no dia seguinte, fomos de novo com eles. O Nestor tem 68 anos e está reformado desde 1989! Tinha sido maestro (professor primário) numa aldeia até aos seus 39 anos, até que saiu uma lei que obrigou todos os maestros com 25 anos de carreira a reformarem-se (começou a dar aulas aos 14 portanto?! – a sabedoria não tem idade) pois muitos tinham contraído uma doença através de uma picada de um mosquito, o que não era o seu caso. A história era um pouco bizarra. Ao que parece, há várias pessoas nesta situação pelas bandas, o que leva o Hilário a dizer várias vezes que os Argentinos têm o país que merecem. A Argentina ao lado de Portugal é o regabofe dos regabofes, vive tudo à conta do Estado (por cada ano de trabalho, está-se dois anos na reforma). No dia seguinte, passámos por mais vinhas e oliveiras do que, com toda a certeza, existem em Portugal Continental e ilhas. Era vinha e oliveira por todo o lado, foram precisos vários banhos para tirar o cheiro a vinho! Para além disso, a “Ruta 40” é uma das estradas mais bonitas por onde já passámos. Isto foi o que achámos até chegarmos a Cayafatte e mudar de estrada, para fazer os últimos 150km. Foram uns 50km pelo meio de canyones de todas as cores. A única coisa chata foi o Hilário achar que estava uma corrida de F1 e ter feito toda a viagem a abrir por curva e contra curva, a ultrapassar todos os carros que encontrava, nas curvas mais apertadas. Parece que o Dakar passou por estas bandas há pouco tempo e o Hilário estava certamente a tentar apurar-se para o próximo evento. Não parámos nem para uma fotografia na estrada mais incrível por onde já passei. Em contrapartida, o Don Nestor (como lhe chamava o seu compadre Horácio, o cantor) quis ficar nosso amigo e, no dia seguinte, já depois de chegados a Salta, levou-nos a conhecer as redondezas. Fomos a Santa Rosa, a um “assado” em casa de um amigo seu que era nada mais nada menos que o intendente da sua vila – o segundo presidente da câmara que conhecemos em três dias, portanto. Este era ligeiramente mais humilde que Don Corleone, apresentava-se de fato de treino e sem grandes poses. Santa Rosa é também conhecida por ser um ovniporto – quer o Nestor quer o Horácio já lá tinham visto ovnis mais do que uma vez e ao que parece muitos europeus vão lá para estudar a espécie. Nós bem tentámos, mas até à data não conseguimos vislumbrar nenhum. Contudo, foi uma tarde bem passada, ouvimos o Horácio tocar guitarra e cantar músicas de Igreja, eu também cantei, fui aplaudida e de seguida fomos fazer uma oração à capela que o intendente tinha em casa. Até acenderam uma velinha por nós, muito queridos.
Depois de Salta, seguimos um pouco mais para norte e fomos até Jujuy-Tilcara, com o intuito de ver montanhas de todas as cores em Purmamarca (14 cores, mais especificamente), entre outros. Estávamos já muito perto da fronteira com a Bolívia e por essas bandas já não há muitas almas a darem boleias, pois para além de terem quase sempre os carros com lotação esgotada, são mais desconfiados. Por isso contámos com a bondade preciosa de outros estrageiros, com maior capacidade económica que nós, que tinham alugado viatura para visitar as proximidades. No primeiro dia, um casal de Franceses e, no segundo dia (que coincidiu também com o dia de anos do Manel), um casal de Ingleses levaram-nos a visitar todas as redondezas. Para terminar em grande o dia de celebrações, ainda o levei o Manel às Peñas – evento folclórico cá da zona – e a jantar ao melhor restaurante da cidade (demo-nos a um pequeno luxo, 15€ por pessoa, mas um dia não são dias), onde tivemos direito a “Parabéns a você” cantados em Castelhano, depois daquela velha “ida à casa de banho” para pedir um bolo e uma velinha ao empregado de mesa, programada pelos dois mas recebida como se fosse uma surpresa. Próximo destino: Bolívia.










